Tréplica

Uma resposta resumida ao livro “Ao que Deus purificou”

Recebi há algumas semanas uma cópia de um livro intitulado “Ao que Deus purificou”, que é a tradução do livro “What God hath cleansed” (a edição em português não faz referência ao título original), escrito por Robert Revie (meu irmão na fé e parente segundo a carne). O original em inglês foi publicado na Escócia em 2012; a edição em português é datada de 2017. Este livro foi escrito em resposta a outro livro intitulado “What God hath joined” (“O que Deus ajuntou”), editado por William Banks e Tom Wilson e publicado (também na Escócia) em 2005. “What God hath joined” foi traduzido para o português por Samuel e Ronnie Davidson, e sua primeira edição brasileira foi publicada pela Editora Sã Doutrina (pela qual sou responsável) em 2010. “O que Deus ajuntou” está na sua quarta edição em português (as outras edições são de 2013, 2015 e 2017).

O autor de “Ao que Deus purificou” deixa bem claro que escreveu seu livro como resposta ao livro que publiquei, “O que Deus ajuntou”. Ele usa o prefácio da sua obra para apresentar um resumo dos principais pontos desse livro, e depois acrescenta: “Eu não concordo com estas conclusões, e analisarei cada uma delas na apresentação do meu ponto de vista”. “Ao que Deus purificou”, portanto, não é realmente um estudo do assunto do casamento e divórcio em todas as suas ramificações, mas uma réplica ao livro “O que Deus ajuntou”.

Este pequeno artigo é uma tréplica — uma resposta à réplica. Não entrarei em detalhes sobre casamento e divórcio (o livro “O que Deus ajuntou” já fez isto), mas apenas apresentarei minha resposta às críticas que o irmão Revie faz ao livro que publiquei, destacando algumas dificuldades que tenho com suas conclusões. Quero fazê-lo no mesmo espírito em que a réplica foi publicada, com respeito e cortesia (virtudes que o autor demonstrou também nas mensagens por e-mail que trocamos antes que eu escrevesse este artigo). Apesar da cordialidade e respeito mútuo, é inegável que nosso entendimento deste assunto é o oposto um do outro, e também é inegável que o assunto é sério. Vou escrever abertamente, expondo algumas dificuldades que tenho com o ponto de vista apresentado em “Ao que Deus purificou”, mas sem tentar convencer ninguém. Cada cristão, e cada igreja local, deve ter as Escrituras como sua base de fé.

Este blog também tem o texto completo do livro que publiquei (O que Deu ajuntou), bem como o texto completo de um livreto escrito em conjunto pelos irmãos Ronaldo Watterson, Samuel Davidson, Jaime Jardine e Severo Oliveira.

Um resumo do resumo

Minha análise dos capítulos do livro em pauta é resumida, mas reconheço que parecerá extensa para alguns. Portanto, apresento abaixo um resumo daquilo que penso ser necessário dizer acerca deste livro.

O autor está, basicamente, defendendo a recepção à comunhão duma igreja local de pessoas que divorciaram e casaram novamente antes de serem salvas (apesar de ir além, e falar de “divórcio lícito” e “divórcio ilícito”). A solução desta questão depende de apenas um detalhe: será que um novo casamento enquanto os dois cônjuges ainda vivem pode ser reconhecido por Deus como válido, ou será sempre um relacionamento de adultério? Se o primeiro casamento foi extinguido perante Deus e o casamento atual é válido, então certamente devemos receber tal pessoa na comunhão da igreja local. Se, porém, Deus ainda considera como válido o primeiro casamento, então qualquer relacionamento físico com alguém que não seja o cônjuge original (não importa quantas vezes seja praticado) será considerado adultério perante Deus — e tal pessoa não deve ser recebida na comunhão duma igreja local. Se resolvermos a questão da permanência ou não do vínculo do casamento, resolveremos a questão da recepção de divorciados.

O autor afirma que “quando o divórcio acontece, ele tem o efeito de quebrar a união/aliança conjugal a tal ponto que não poderá ser refeita” (pág. 29, ênfase minha). Aqui ele dá a impressão que o divórcio por qualquer motivo quebra a aliança do casamento — em outras partes do livro ele explica que somente a fornicação torna um divórcio “lícito” (expressão que ele usa na pág. 48, por exemplo). Deixando de lado o entendimento do autor sobre os motivos, repare a conclusão que ele apresenta: o divórcio quebra a união conjugal “a tal ponto que não poderá ser refeita”.

Creio que esta conclusão é contraditória e sem base bíblica. É contraditória porque, se um divórcio extingue o primeiro casamento completamente, um segundo divórcio extinguiria o segundo casamento completamente (e assim ad infinitum). Se o divórcio extinguisse completamente o primeiro casamento, os dois cônjuges já não teriam nenhum vínculo um com o outro — e o que os impediria, então, de se casarem após um segundo divórcio? Se a Lei proibia um divorciado de voltar ao primeiro cônjuge, obviamente deduzimos que o divórcio não extinguia completamente o primeiro casamento — alguma sequela ficaria!

E é exatamente isto que vemos em Deuteronômio 24 (por isso afirmei que a conclusão do autor não tem base bíblica). Aquele trecho afirma que uma mulher divorciada nunca poderia voltar ao primeiro marido (mesmo se o segundo morresse) não porque a aliança do primeiro casamento havia sido rompida “de tal forma que nunca mais poderia se juntar” (pág. 18, ênfase do autor), mas porque a mulher divorciada havia sido contaminada pelo segundo casamento (Dt 24:4: “… seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a tomá-la, para que seja sua mulher, depois que foi contaminada”). Portanto, longe de mostrar que o divórcio extinguia o primeiro casamento, o texto da Bíblia afirma que mesmo o divórcio permitido pela Lei de Moisés não impedia que o segundo casamento fosse uma união contaminada! Tolerada por Deus por causa da dureza do coração do povo de Israel (como Ele tolerou a poligamia naqueles dias), mas ainda assim, contaminada.

Essa é a diferença básica entre nosso entendimento das Escrituras. O autor crê que um divórcio extingue um casamento — eu creio que as Escrituras apresentam o casamento como sendo “até que a morte os separe”. Nosso entendimento sobre a questão da recepção à igreja local é uma consequência do nosso entendimento sobre o divórcio seguido de novo casamento.

Uma explicação

A primeira reação de muitos ao ler minhas considerações nas páginas seguintes (que defendem o mesmo ensino apresentado no livro “O que Deus ajuntou”) é que este ensino é muito duro e “sem misericórdia”. Eu reconheço que, infelizmente, há muitos irmãos e irmãs que defendem este ensino de uma forma rígida e insensível. Mas o erro de alguns em defender uma verdade não afeta a verdade em si. Se desprezamos qualquer irmão ou irmã (porque concordam com o divórcio, ou porque não concordam) teremos que prestar contas a Deus pela nossa falta de compaixão. Precisamos lembrar que somos todos fracos e sujeitos a errar — devemos condenar o erro, mas amar uns aos outros.

O ensino que defendo a seguir é exigente, sem dúvida alguma (a reação dos discípulos ao ensino do Senhor Jesus sobre divórcio mostra que eles também acharam isto; Mateus 19:10). Mas nossa função como servos de Deus não é avaliar quão compassivos os Seus ensinos parecem ser aos nossos olhos — devemos tentar entender o que Ele ensinou, e praticar. Com humildade, reverência, respeito pelo próximo, e muita compaixão — mas sem fazermos concessões.

Aplicar este ensino na vida prática trará muita dor de cabeça e muitas lágrimas. Algumas situações poderão ser resolvidas, outras são tão complexas que poderão nos levar ao desânimo. Mas lembremos que tudo é possível para Deus. Sabedoria e misericórdia serão necessárias para que cada presbitério julgue cada situação que aparecer, caso por caso. E nosso Deus certamente ajudará aqueles que desejam honrá-lO e respeitar a Sua Palavra.

Vamos, então, por partes (todas as citações abaixo que contém somente a indicação de número de página são do livro “Ao que Deus purificou”).

Análise dos capítulos

No primeiro capítulo o autor concorda que o casamento é “uma ordem criacional” e “um princípio divino que nunca se altera para ninguém, salvo ou não salvo, antes de ser salvo ou depois de ser salvo, e que os propósitos originais de Deus permanecem imutáveis seja o que for que aconteça subsequentemente … os princípios se aplicam tanto a cristãos como a não cristãos” (pág. 11). Em seguida, o autor destaca a diferença entre o que Deus deseja e o que Ele permite, mas não aplica isto ao assunto do casamento (ao pensar nas ocasiões em que Deus permitiu o que Ele não aprovou, seria sensato considerarmos as terríveis consequências!).

No segundo capítulo, procurando responder à afirmação do livro “O que Deus ajuntou” que casamento não ocorre com a união física carnal, mas com o compromisso assumido publicamente, o autor concorda que “a união física somente não constitui o casamento, e isto deveria ser óbvio”. Em seguida, porém, ele acrescenta: “Mas eu acredito também que a cerimônia formal ou informal somente também não constitui o casamento” (pág. 13, ênfase do autor). Ele cita o mesmo exemplo usado em “O que Deus ajuntou”, o de Boaz e Rute — um exemplo que deixa claro que a união carnal foi posterior ao casamento! O texto da Bíblia (na versão citada pelo autor) diz: “Assim tomou Boaz a Rute, e ela passou a ser sua mulher; coabitou com ela …” A Bíblia não diz que ela se tornou esposa de Boaz quando coabitaram, mas que Boaz coabitou com aquela que já era esposa dele. O ato de recebê-la publicamente, na porta da cidade, fez com que ela se tornasse mulher dele — isto foi o casamento. A união carnal veio depois. Assim, a premissa do livro “O que Deus ajuntou” fica confirmada.

No terceiro capítulo, em que procura provar que o divórcio rompe o laço do matrimônio, o autor cita o caso da mulher samaritana e faz algumas deduções, preparando o leitor para o argumento do capítulo quatro: que o divórcio rompia os laços do casamento original no Velho Testamento. O autor cita Deuteronômio 24:1-4, onde a Lei permite o divórcio e novo casamento, mas proíbe uma mulher que teve um segundo casamento voltar ao seu primeiro marido, mesmo se o segundo marido “vier a morrer”. De forma surpreendente, porém, ele conclui que esta proibição é porque “o divórcio rompia os laços da aliança inicial e da união matrimonial de tal forma, que nunca mais poderia se juntar” (pág. 18, ênfase do autor).

O problema com esta conclusão é que a Bíblia apresenta uma conclusão diferente! O texto citado afirma claramente: “… não poderá tornar a tomá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada” (Dt 24:4). Ou seja, a Bíblia está dizendo que quando ela se divorciou e se uniu com outro homem ela se contaminou — por isso não poderia voltar ao primeiro marido, nem mesmo se o segundo morresse! O autor mesmo reconhece, na pág. 19, que “havia uma proibição clara afirmando que ela não poderia voltar a se casar novamente com seu primeiro marido ou marido anterior, porque ela se encontrava contaminada”. A afirmação da Bíblia não é que ela seria contaminada se voltasse ao primeiro marido, mas que já foi contaminada. Quando ocorreria esta contaminação? Quando ela tentasse voltar ao primeiro marido, depois de um segundo relacionamento? Não — fazer isso seria algo terrível (uma “abominação perante o Senhor”, Dt 24:4), mas não causaria contaminação — a contaminação já existia.

Portanto, longe de mostrar que o divórcio extinguia o primeiro casamento, o texto da Bíblia afirma que mesmo o divórcio permitido pela Lei de Moisés não impedia que o segundo casamento fosse uma união contaminada! É solene e sério pensar nisto!

Neste mesmo capítulo quatro o autor diz que “outro exemplo do divórcio rompendo os laços do casamento se encontra em Esdras 10:11” — mas o texto citado apenas fala da ordem de Deus dada aos israelitas para que mandassem embora suas mulheres gentias. Não há nenhuma indicação no trecho que, uma vez feito isto, estes israelitas estariam livres para casarem novamente. Separação física é bem diferente de extinção do casamento e liberdade para casar novamente! Aqueles judeus, conhecedores da Lei, sabiam muito bem como deveriam agir nesse caso específico (veja Ed 10:3: “… faça-se conforme a lei”).

No capítulo cinco, em que trata do ensino do Senhor Jesus quanto ao divórcio, o autor trata da chamada “cláusula de exceção”. O livro “O que Deus ajuntou” destaca a diferença entre as palavras gregas porneia (traduzida “fornicação”) e moichao (traduzida “adultério”) em Mateus cap. 5. O autor tenta contradizer isto apresentando, primeiramente, diversas citações do Velho Testamento (págs. 23 e 24 — mas como o Velho Testamento foi escrito em hebraico e não grego, ele está realmente comparando apenas as palavras em português; portanto, podemos desconsiderar esta parte do argumento). Depois ele cita I Coríntios 5:1 como suposta prova de que porneia não “se restringe à pessoa solteira” — mas este versículo mostra o contrário, pois quem foi acusado de fornicação naquele versículo não foi o pai casado, mas o filho que possuiu a mulher do seu pai (um filho provavelmente solteiro). Em seguida, ele cita uma série de versículos (págs. 25 e 26) que se referem, como ele diz, “a todas as pessoas sem distinção” (ênfase do autor), e conclui que Mateus cap. 5 e cap. 19 não podem ser diferentes (mas o fato de uma palavra ser usada para descrever todas as pessoas em um contexto não quer dizer que ela precisa se referir a todas as pessoas em todo contexto!). Logo em seguida o próprio autor enfatiza: “…as palavras ‘fornicação’ e ‘adultério’ são claramente diferentes e assim devem ter significados diferentes” (ênfase minha). Ele cita então diversos dicionários (pág. 27 e 28).

Tudo o que resumi no parágrafo acima é apresentado no contexto de um argumento conhecido na retórica como “falácia do espantalho”, em que se combate uma versão modificada da posição original que se quer contradizer. Os autores de “O que Deus ajuntou” não estão defendendo que porneia e moichao sempre e somente querem dizer “fornicação” e “adultério”, respectivamente, em qualquer contexto. Naquele livro está escrito: “Não há dúvida que a palavra porneia, quando usada sozinha, é uma palavra geral para pecados sexuais de vários tipos. Contudo, quando é usada no mesmo contexto que a palavra moichao obviamente é importante fazer uma diferença” (“O que Deus ajuntou”, pág. 50 — exatamente a mesma posição que o autor admite na citação feita no parágrafo acima). Portanto, o argumento inicial apresentado em “O que Deus ajuntou” continua válido: uma correta interpretação da chamada “cláusula de exceção” (uma parte difícil das Escrituras, com certeza) precisa levar em conta o fato de o Senhor ter usado duas palavras diferentes (porneia e moichao) na mesma frase.

O livro “O que Deus ajuntou” destaca a diferença entre as expressões “um só corpo” (ligada à união com uma prostituta em I Coríntios 6:16) e “uma só carne” (a descrição do casamento). O capítulo seis de “Ao que Deus purificou” parece ter sido escrito para combater esta conclusão — porém o autor termina este capítulo afirmando que as duas expressões são diferentes, e que Paulo aqui não está “igualando a prostituição ao casamento” (pág. 32). Nisto, os dois livros estão de acordo.

O capítulo sete defende uma verdade com a qual todos nós concordamos plenamente: “O perdão não livra a pessoa das consequências dos pecados anteriores à conversão, mas significa sim, que Deus purificou aquela pessoa de todo o pecado” (pág. 33). Nisto não há dúvida. Em seguida, porém, o autor cita exemplos de servos de Deus no VT que tiveram mais de uma esposa, e afirma que a poligamia ainda é praticada em muitos países hoje. O que será que ele quer provar com isto? Que a poligamia é aceitável hoje? Não, pois ele mesmo reconhece que “como crentes neotestamentários somos chamados a viver sob um padrão muito mais elevado de fidelidade monogâmica” (pág. 35; ênfase minha). A comparação de um divorciado com um polígamo neste contexto realmente contradiz o argumento do seu livro! Se uma igreja local pode receber na comunhão alguém que é divorciado e vive com outra esposa, será que o autor está sugerindo que ela deve também receber um polígamo que se converte e continua vivendo na poligamia? Creio que não — realmente não sei o que ele quis provar neste capítulo.

O capítulo oito apresenta o argumento que “a pessoa deve permanecer no estado em que a graça a encontrou, assumindo que seja legal e aceitável a Deus” (pág. 37, ênfase minha). Concordo. A premissa do livro “O que Deus ajuntou”, porém, é que um segundo casamento não é aceitável a Deus enquanto o primeiro cônjuge esteja vivo. O argumento apresentado aqui, portanto, não se aplica ao argumento apresentado no livro “O que Deus ajuntou”.

No nono capítulo o autor argumenta, da gramática grega, que o estado de “adultério perpétuo” não existe. Ao fazê-lo, porém, ele se contradiz, pois afirma que “o Senhor está dizendo que quando alguém se divorcia (a não ser por imoralidade sexual) e se casa novamente, esta pessoa naquele momento comete adultério.” (pág. 41, ênfase do autor). Porém ele continua: “No entanto, não é algo contínuo porque o divórcio e o novo casamento quebraram a aliança do casamento original” (ênfase minha). Se o divórcio tem o poder de extinguir o casamento, por que dizer que há adultério “naquele momento” do segundo casamento? Se o divórcio realmente extinguisse a aliança do casamento original, então a pessoa estaria livre para casar novamente sem adulterar; mas como o autor afirma que um segundo casamento é de fato adultério (mesmo que, na sua visão, apenas no primeiro momento), isto quer dizer que o divórcio não extinguiu o primeiro casamento.

Além disto, é difícil entender por que o primeiro ato sexual após o divórcio é considerado pelo autor como adultério, e os demais não são. Um irmão formado em advocacia, e escrevendo do ponto de vista jurídico, comentou: “Na cadeia de raciocínio do autor, seria possível extinguir um casamento válido, por dois atos supervenientes e, na origem, inválidos (divórcio e segundo casamento), contudo esses seriam posteriormente considerados válidos. Desnecessária a demonstração que esse raciocínio não encontra fundamento bíblico” (de correspondência particular).

Este capítulo me pareceu contraditório. Se (i) o divórcio anula o primeiro casamento, por que o segundo casamento implicaria em adultério? Se (ii) o divórcio é pecado e o adultério também, por que estes dois atos errados se tornam, juntos, a base que “santifica” todos os demais relacionamentos do casal adúltero?

No capítulo dez temos uma consideração de Romanos cap. 7, em que o autor reconhece que este trecho das Escrituras “aplica o princípio aprendido na Criação, que o casamento deveria ser para toda a vida” (pág. 43). Ele sugere, porém, que o trecho apenas usa o casamento como ilustração, e “não é uma discussão profunda sobre o casamento em todos os seus aspectos” (pág. 44, ênfase do autor). O princípio que o autor admite ser bíblico (que “o casamento deveria ser para toda a vida”) é a base do livro “O que Deus ajuntou”.

Nos capítulos onze e doze, o autor parte do pressuposto que um divórcio motivado por fornicação é “divórcio lícito” (que permite um segundo casamento), e argumenta que este ato não deve ser tratado como outros pecados são (cap. 11), e que Deus não odeia este tipo de divórcio (cap. 12). Ele inclusive cita a atitude de Deus em relação a Israel (Jeremias 3:8) como prova de que até Deus “praticou este ato” (pág. 49). Quero ter cuidado ao falar da santidade de Deus — mas parece que o autor esqueceu de duas coisas: (i) que Deus fala da Sua atitude em termos figurativos; e (ii) que Ele mandou Israel embora não para tomar outra, mas para futuramente reconciliar Israel a Si. O que estou defendendo (e é o ensino do livro “O que Deus ajuntou”) não é que nunca poderá haver uma separação entre marido e mulher, mas sim que um segundo casamento, enquanto o primeiro cônjuge está vivo, sempre será pecado, e que o divórcio não extingue o primeiro casamento. Em alguns casos a separação será inevitável, e não conduz, necessariamente, ao pecado. Mas se houver separação, não pode, jamais, haver uma outra aliança enquanto a morte não quebrar a primeira. A atitude de Deus em relação a Israel confirma isto. Ele “deu carta de divórcio” a eles, mas nunca procurou outra nação! Seria bom se tivéssemos a fidelidade dEle como nosso exemplo e padrão.

No capítulo treze temos um argumento emotivo, porém sem fundamento. O autor sugere que receber pessoas divorciadas “deve ter sido a prática [das igrejas locais] no primeiro século” (pág. 51, ênfase minha). Mas isto é algo sobre o qual as Escrituras mantêm silêncio. Também é afirmado aqui que não pode haver meio termo: não é possível Deus salvar alguém, e esta pessoa não estar apta à comunhão da igreja local. O argumento, como afirmei, apela para nossas emoções, e parece ser convincente. Mas a nossa própria prática o condena. Conheço um irmão (que muito admiro) que, pouco tempo depois de ser perdoado e purificado por Deus, entregou-se às autoridades para cumprir uma pena de prisão por crimes cometidos antes de ser salvo. Foi preso, e não pôde reunir-se com nenhuma igreja local por vários anos. Seu pecado foi perdoado e ele foi purificado, mas como o autor já afirmou: “O perdão não livra a pessoa das consequências dos pecados anteriores à conversão” (pág. 33). Alguém que é salvo quando vive num relacionamento homossexual, ou como membro de uma quadrilha de bandidos, ou na poligamia, é imediatamente perdoado quando crê, mas talvez muitas coisas na sua vida precisam ser colocadas em ordem antes que ele possa ser recebido na comunhão de uma igreja local. Infelizmente não podemos dizer que o perdão da salvação (pleno e irrestrito) remove todas as barreiras para a comunhão na igreja local.

No capítulo quatorze temos o argumento que “obviamente há cristãos que podem ser aceitos na comunhão, mas não são aptos para a liderança” (pág. 53), e isto é aplicado ao caso do divórcio. Mas toda a argumentação anterior do livro é que, ao ser salvo, a situação matrimonial foi resolvida e “purificada”, e mesmo alguém que foi divorciado e casou-se novamente diversas vezes está tão apto para a comunhão como Paulo, que foi assassino antes de crer (afirmação feita pelo autor na pág. 47). Este capítulo, porém, parece sugerir que não é bem assim, e que resta algum problema com essa pessoa. Parece-me que isto contradiz a argumentação anterior do autor.

No capítulo quinze o autor cita as condições morais existentes em outras partes do mundo. Reconheço que muitos irmãos e irmãs piedosos dedicaram suas vidas pregando o Evangelho em lugares onde o casamento conforme o padrão bíblico era desprezado (o autor e sua falecida esposa, por exemplo, serviram ao Senhor por muitos anos na África). Mas não podemos usar as experiências de outros para interpretar a Bíblia. Cada um dará contas de si mesmo a Deus, e Ele certamente levará tudo em consideração. Mas se começarmos a usar as práticas de outras culturas e de outros servos como justificativas para diminuirmos o que está escrito, creio que estaremos desviando muito do alvo, e nos aproximando do relativismo contemporâneo.

No capítulo dezesseis (que trata de I Coríntios cap. 7), novamente há contradições na argumentação do autor. Primeiro, ele interpreta os vs. 27-28 como referindo-se a alguém divorciado. Ele baseia esta interpretação na expressão: “Estás livre de mulher? … Se te casares, não pecas”. Ele argumenta que a expressão “livre de mulher” não pode se referir a alguém solteiro, porque dizer a um solteiro que não é pecado se casar “é óbvio, e nem precisaria ser dito” (pág. 60). Mas ele mesmo cita, na pág. 62, as palavras que seguem em I Coríntios: “… se a virgem se casar, por isso não peca” — dizer que uma virgem pode casar é tão óbvio quanto falar isto para um solteiro!

Outra contradição é vista ao tratar das causas que justificam (no entendimento dele) um novo casamento por parte de um salvo. No final da pág. 59 ele afirma que se o descrente divorciar o cristão por qualquer motivo que não seja conduta imoral, isto “não dá ao cristão o direito de se casar novamente” — somente seria permitido outro casamento (segundo ele) “quando o descrente se separa e entra em outro relacionamento, quebrando assim, irremediavelmente, o casamento original”. Assim ele deixa claro que entende que o divórcio em si não quebra o casamento, mas é o ato carnal que faria isto. No final da pág. 61, porém, ele sugere que se o homem foi divorciado por iniciativa da esposa (foi ela quem pediu o divórcio e não ele), então ele está livre para casar novamente. Não fica claro o que o autor está defendendo: o que quebra o vínculo matrimonial é o ato legal do divórcio, ou o ato imoral da infidelidade conjugal?

O capítulo dezessete é longo, e trata da chamada “teoria do noivado”. Não vou me referir aos detalhes da sua argumentação aqui (porque a posição que o autor critica não é a posição defendida no livro “O que Deus ajuntou”), mas menciono o assunto no Adendo (para tentar explicar o que creio sobre esta parte do assunto).

Reconheço que a cláusula de exceção em Mateus 5:32 e 19:9 é difícil de ser entendida satisfatoriamente. Mas a questão toda fica bem mais simples quando se leva em consideração duas coisas:

  • A não ser pela cláusula de exceção registrada em Mateus, todo o restante do ensino do NT sobre o divórcio afirma que um segundo casamento resulta em adultério (Marcos 10, Lucas 16, Romanos 7, I Coríntios 7). Seria coerente tentar entender a cláusula de exceção à luz do restante do NT (como propõe o livro “O que Deus ajuntou”), ou tentar interpretar o restante do NT à luz da cláusula de exceção de Mateus (como propõe o livro “Ao que Deus purificou”)?
  • A reação dos discípulos diante das palavras do Senhor em Mateus 19 é impressionante: “Disseram-lhe Seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar” (v. 10). Eles acharam o padrão elevado demais para ser cumprido. E o Senhor confirmou a interpretação deles! Ele disse: “Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido … há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos Céus” (v. 11-12). O Senhor reconhece que o padrão é elevadíssimo, mas mostra que a graça de Deus pode conceder ao homem a capacidade para ser um eunuco (figurativamente, abstendo-se de qualquer contato com pessoas do sexo oposto — isto é, permanecendo sozinho) por causa do reino dos Céus (isto é, para agradar a Deus ao obedecer a Sua Palavra).


No Resumo e nas Notas Finais o autor repete uma posição que me parece contraditória: ele afirma que “uma pessoa que se divorciou por algo que não seja ‘fornicação’ e tem um novo relacionamento com outra pessoa, inicialmente comete adultério, porém isto não é um pecado contínuo” (pág. 73, ênfase minha). Se houve um ato carnal com uma terceira pessoa antes do divórcio, o casamento estaria extinguido — se não houve, então o primeiro ato sexual após o divórcio seria um adultério, mas a partir deste ato o casamento estaria extinguido e não existiria mais o adultério. Talvez esse seja o ponto chave dessa questão toda. Se um novo casamento coloca alguém em um “estado de adultério”, então a maioria que lê estas palavras concordará que uma pessoa nessas condições não deve ser recebida na comunhão da igreja local. Por outro lado, se um novo casamento gera um “ato de adultério” apenas no primeiro relacionamento carnal, então tal pecado pode ser perdoado e a pessoa pode ser recebida na comunhão.

A questão é que nada é apresentado como justificativa para a posição de que apenas o primeiro ato é adultério e os demais não. Será que o primeiro ato de adultério “santifica” (é até absurdo escrever isto) os próximos? “Não”, diz alguém, “o primeiro ato de adultério quebra a aliança do casamento, por isso os atos seguintes não são mais adultério!” Mas então estamos admitindo que um ato carnal é mais sério e comprometedor do que o casamento, pois extingue o primeiro casamento e automaticamente constitui um novo “casamento” (já que os demais relacionamentos carnais não seriam mais adultério). Também estaríamos sugerindo que, ao cometer um ato de adultério, o cônjuge não tem mais a opção de ser perdoado e retomar o seu casamento, pois aquele ato de adultério quebrou a aliança do casamento e o uniu num novo “casamento” com a pessoa com quem adulterou!

O absurdo destas conclusões é evidente! Na Nota Final 5 o autor apresenta o que ele chama de “resultado da teoria do noivado” (como já escrevi, a “teoria” que o autor critica neste livro não é o que creio, nem o que é defendido no livro “O que Deus ajuntou”) — no parágrafo acima, apresento o resultado (absurdo) de afirmar que o adultério quebra o vínculo do matrimônio: um homem adúltero não poderia ser perdoado e voltar à sua esposa, pois ela não seria mais esposa dele depois do adultério! (mais sobre isto no Adendo.)

Conclusão

Estes são alguns dos problemas que percebi ao ler o livro “Ao que Deus purificou”. Visto que o livro foi escrito para responder ao livro que publiquei (“O que Deus ajuntou”), apresento acima minha opinião sobre ele.

Como afirmei no começo, faço isso com respeito pelo irmão Robert Revie, e reconhecendo que o divórcio tem arruinado muitas famílias (e continuará fazendo isto). Não é um assunto que abordo de forma técnica e fria — já sentei, conversei e chorei junto com familiares meus que vivem esta realidade e sofrem as consequências do divórcio. Nada me daria mais prazer do que saber que Deus autoriza que estes amados sejam recebidos na comunhão da igreja local. Mas pelo que consigo ver das Escrituras, só consigo chegar a uma conclusão: o casamento foi instituído por Deus para ilustrar o relacionamento do Seu amado Filho com a Igreja. Assim como nada pode invalidar essa aliança espiritual e eterna, assim também nada pode quebrar a aliança terrena do matrimônio (a não ser, obviamente, a morte, pois o cônjuge morto não está mais nesta vida). Portanto, qualquer “casamento” enquanto o primeiro cônjuge de alguém ainda vive é um estado de adultério enquanto permanece, e tal pessoa não pode ser recebida na comunhão de uma igreja local.

Adendo — a “teoria do noivado”

O autor do livro em pauta dedica um capítulo (o cap. 17, o maior do livro) e uma Nota Final (a de número 5) para tratar do que ele chama “teoria do noivado”. Mas o que é esta tal “teoria do noivado”?

Permite-me enfatizar que esta dúvida não é só minha. Alguns meses após a versão original de “Ao que Deus purificou”, em inglês, ser publicada na Escócia, a revista Believer’s Magazine (publicada por John Ritchie Ltd.) apresentou uma resenha do livro. Nesta resenha, lemos: “O termo ‘teoria do noivado’, usado diversas vezes nas setenta e nove páginas do livro, é novo para este revisor.”

No decorrer desta tréplica não entrei em detalhes sobre as partes do livro que tratam desta teoria devido a este fato. É um termo novo (para mim), que é apresentado como se fosse a base do livro que publiquei (“O que Deus ajuntou”), mas o próprio autor reconhece que é uma questão que “não está ligada à questão principal já tratada, e tem menos implicações” (pág. 63). Eu creio que esta “teoria”, da forma como ele a apresenta no seu livro, não representa o meu entendimento sobre a famosa “cláusula de exceção”, nem o entendimento dos autores de “O que Deus ajuntou”, e que o autor aqui é culpado da falácia do espantalho. Por isso, não achei necessário (nem proveitoso) entrar em detalhes sobre o que ele escreveu.

Por outro lado, talvez seria necessário apresentar, mesmo que resumidamente, o que eu creio sobre a cláusula de exceção. Reconheço que é uma frase difícil e que tem causado muita polêmica e confusão. O livro “O que Deus ajuntou” afirma: “A cláusula de exceção, traduzida aqui ‘não sendo por causa de fornicação’, contem somente três palavras na língua original, e não existem outras três palavras que tem produzido tão grandes montanhas de papel!” (pág. 49). As palavras em si são simples — o problema surge porque elas parecem contradizer todo o ensino bíblico sobre divórcio e novo casamento. Como entendê-las?

Alguns querem simplificar o assunto, e aceitam estas palavras literalmente. Afirmam que quando alguém trai o seu cônjuge aquele ato de infidelidade rompe o compromisso assumido no casamento, portanto o casamento não existe mais e a parte inocente está livre para casar novamente com outra pessoa. É uma explicação simples de Mateus 5:32 e 19:9, mas que cria problemas maiores ainda. Tomo espaço para citar um destes problemas.

É costume enfatizarmos o caminho nobre do perdão (veja Ef 4:32). Quando ouvimos de um marido ou uma esposa traído(a) que perdoou a traição do seu cônjuge, admiramos sua espiritualidade, e vemos nisto um reflexo do amor de Deus pelo Seu povo: “Tu te prostituíste com muitos amantes; mas ainda assim, torna para Mim, diz o Senhor” (Jr 3:1). Deus perdoou o Seu povo que, espiritualmente, O traiu — sabemos também que este é o caminho mais nobre para o cristão traído pelo seu cônjuge. Porém, se o ato de adultério desfez a aliança do casamento, então o cônjuge traído tem a obrigação (não a opção) de exigir o divórcio, e não pode perdoar o traidor. Poderia até “perdoar” no sentido de “não guardar mágoa”, mas jamais poderia dizer, como o Senhor: “… ainda assim, torna para mim”, pois o traidor não é mais (segundo esta interpretação) o cônjuge do traído — a traição acabou com o casamento.

O autor do livro em pauta não leva o seu argumento à esta conclusão — mas esta é a conclusão lógica da interpretação que ele apresenta para a cláusula de exceção. Um irmão já falecido, que também defendeu esta interpretação, foi honesto ao afirmar em correspondência particular: “Surge então a pergunta: o divórcio é a conclusão inevitável da traição? … Se entendemos que tal pecado é tão sério como a Bíblia o apresenta, o divórcio será feito.”

Não consigo aceitar uma interpretação tão extrema desta cláusula tão pequena. Este pode ser o padrão do mundo, mas para o cristão o amor que conduz ao perdão sempre será o caminho mais excelente. Portanto, a cláusula de exceção não pode significar que a infidelidade do marido ou da esposa desfaz o casamento.

O que significa, então? Creio que para tentarmos entender esta cláusula devemos lembrar que:

  • Ela só é mencionada em Mateus;
  • Ela usa a palavra “fornicação”, e não “adultério”.

Seria normal, ao falar de infidelidade conjugal, o Senhor ter dito: “a não ser por causa de adultério”. O fato dEle usar a palavra “fornicação”, e não simplesmente “adultério”, não pode ser ignorado.

Resumidamente, e tentando levar em consideração os dois pontos mencionados acima, creio que Mateus foi o único evangelista que o Espírito Santo levou a acrescentar esta cláusula porque ele foi também o único que registrou a dúvida que José teve quanto a Maria, quando descobriu que ela estava grávida antes do seu casamento. “José, sendo justo, e não a queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mt 1:19). Pela lei (Dt 22:23 em diante) José teria o direito de trazer o assunto aos magistrados, que fatalmente resultaria em Maria sedo apedrejada. Mas ele amava sua futura esposa, e para preservá-la dessa morte horrível, ele pensava em apresentar a ela um termo de divórcio genérico. Broadus (um autor que defende a mesma interpretação da cláusula de exceção apresentada em “Ao que Deus purificou”) afirma:
“Entendemos que a Lei não era interpretada como exigindo que um marido acusasse sua esposa adúltera, e assim José não estaria violando a Lei se ele evitasse o caminho extremo, e a divorciasse sem apresentar nenhum motivo na sua carta de divórcio. Edersheim mostra que tal procedimento estaria de acordo com a tradição e opinião rabínica” (BROADUS, J. A. Commentary on Matthew. Grand Rapids: Kregel, 1990. Pág. 19).
Ou seja, José pensava em “divorciar” sua esposa prometida antes de se casar com ela. É claro que tal expressão, na nossa cultura, soa absurda, pois solteiros não podem se divorciar. Mas na cultura judaica o período do desposamento (mais ou menos parecido com o nosso período do noivado) era tão sério que exigia um termo de divórcio para ser cancelado.

Creio que Mateus, escrevendo principalmente para leitores judeus, foi levado pelo Espírito Santo a preservar a pureza do relacionamento entre José e Maria, e que a cláusula de exceção nas palavras do Senhor é uma descrição do que José intentou fazer com Maria, antes que o anjo lhe dissesse para continuar adiante e consumar o casamento.

Creio que esta cláusula de exceção deve ser entendida da mesma forma que entendemos a menção do pecado imperdoável (Mateus 12:31) — algo específico para aquela cultura e aquela geração.









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