A saudação

O texto abaixo é a íntegra do livrete de mesmo título publicado pela eSd [comprar]

Introdução

Em nossos dias, é comum ouvir saudações tais como: “A Paz do Senhor, irmão” ou “A Paz de Deus”. Parece estar aumentando o número de crentes que saúda os seus irmãos desta maneira. Diga-se, porém, que estes crentes não usam estas saudações para todas as pessoas; usam-nas apenas ao encontrar-se com um irmão na fé.



Muitos crentes estão tão acostumados a usar e ouvir estas saudações, que se espantam ao ouvir um cristão dizer a outro: “Bom dia” ou “Boa noite”. Julgam que este crente está seguindo o exemplo do mundo e, portanto, está em falta perante Deus.

Diante deste fato, precisamos recorrer à Palavra de Deus a fim de saber como devemos saudar-nos uns aos outros. Não podemos resolver esta questão de outra maneira; é só na Bíblia que podemos descobrir o que Deus quer que façamos.

Talvez seja surpresa para o leitor descobrir que a Bíblia fala muito a respeito de saudações. O verbo “saudar” (aspadzomai, no grego), aparece sessenta vezes no Novo Testamento, e o substantivo “saudação” (aspasmmos, no grego) é usado dez vezes. Além destas setenta referências, temos muitos exemplos de saudações, sem que a palavra seja usada. Vamos examinar estas referências e veremos nelas o exemplo que Deus deixou para nos orientar. Que o Espírito Santo conceda a cada leitor não só a compreensão destas Escrituras, como também a graça para obedecer.

As palavras usadas na Bíblia

Saudar

Examinando as ocorrências do verbo “saudar”, descobrimos que a maioria delas simplesmente menciona o fato, sem registrar as palavras usadas na saudação.

Por exemplo, lemos que Maria, após a visita do anjo Gabriel, foi à região montanhosa de Judá e, entrando na casa de Zacarias, saudou a Isabel (Lc 1:40). As palavras que usou na saudação, porém, não estão registradas. Quando o Senhor Jesus desceu do monte da transfiguração a multidão ficou espantada, correu para Ele e O saudou (Mc 9:15). Outra vez, constatamos que as palavras da saudação não são registradas.

Nas cartas do Novo Testamento, encontramos este verbo frequentemente; somente no cap. 16 de Romanos é usado dezessete vezes! O apóstolo diz, naquele capítulo: “saudai a Priscila e a Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus ” (v. 3); “saudai a Epêneto, meu amado” (v. 5); “saudai a Maria, que trabalhou muito por nós” (v. 6). Nos versículos que seguem temos uma longa lista de pessoas a quem o apóstolo envia saudações. Observe bem que, nesta lista comprida, não encontramos, nem uma só vez, as palavras de uma saudação formal.

No mesmo capítulo (Romanos 16), após enviar as suas próprias saudações a estas pessoas, Paulo transmite as saudações de outros. “Saúdam-vos Timóteo, meu cooperador, e Lúcio, Jasom e Sosípatro, meus parentes” (v. 21); “saúda-vos Gaio, meu hospedeiro … saúda-vos Erasto, procurador da cidade, e também o irmão Quarto” (v. 23). Mais uma vez, notamos a ausência de quaisquer palavras de saudação; apenas o fato foi registrado.

Há, porém, uma ocorrência deste verbo onde temos as palavras que foram usadas na saudação. E foi uma saudação cínica e cruel! O nosso Salvador foi entregue aos soldados para ser crucificado. Estes vestiram-nO de púrpura, a cor usado por reis e imperadores, e coroaram-nO de espinhos. Para agravar ainda mais o escárnio desapiedado, começaram a saudá-lO, dizendo: “Salve, Rei dos judeus” (Marcos 15:18).

A conclusão que tiramos, pois, deste estudo do verbo “saudar”, é que Deus não deixou uma fórmula específica que deveria ser usada nas saudações dos cristãos.

Saudação

Passemos agora à consideração das ocorrências do substantivo “saudação”. Aparece dez vezes no Novo Testamento, e a maioria destas ocorrências está nos Evangelhos.

Em Lucas cap. 1, por exemplo, encontramos a palavra “saudação” três vezes. Quando o anjo Gabriel veio falar com Maria a respeito do nascimento do Senhor Jesus, ele disse: “Salve, agraciada” (v. 28). Maria turbou-se muito com aquelas palavras e considerava que saudação seria esta (v. 29). Observe bem: o anjo usou a mesma palavra — a mesma saudação — que os soldados usaram ao escarnecer do Senhor Jesus: “Salve” (chaire, no grego).

Após a visita do anjo, Maria levantou-se e foi à casa de Zacarias, e saudou a Isabel (Lc 1:40). Aconteceu que, ao ouvir a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre (veja v. 41). Neste caso, porém, não são registradas as palavras que Maria falou.

Os fariseus e escribas amavam as saudações nas praças. Falando sobre as práticas erradas destes, o Senhor disse: “Amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens: Rabi, Rabi” (Mt 23:6-7). Marcos também foi levado pelo Espírito Santo a registrar esta mesma denúncia, dizendo: “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes compridas, e das saudações nas praças” (Mc 12:38). Ainda outra vez, o Espírito voltou ao mesmo tema, inspirando Lucas a escrever as palavras do Senhor Jesus neste sentido: “Ai de vós, fariseus, que amais os primeiros assentos nas sinagogas, e as saudações nas praças” (Lc 11:43).

Estas declarações do Senhor mostram claramente que o motivo da saudação é mais importante do que a própria saudação. Os fariseus e escribas amavam as saudações, somente para serem vistos pelos outros e elogiados pelos seus semelhantes, e o Senhor reprovou esta atitude. As palavras usadas nestas saudações não são mencionadas, pois elas não são importantes; o importante é o motivo.

Nas cartas do Novo Testamento encontramos mais três ocorrências da palavra “saudação“; Paulo a usou na conclusão de três de suas epístolas (I Co 16:21; Cl 4:18; II Ts 3:17). Em cada um destes casos, ele escreveu: “Saudação da minha própria mão, de Paulo”. Não são registradas as palavras de uma saudação formal, mas simplesmente o sentimento transmitido através das palavras: “Saudação da minha própria mão”.

Tendo estudado as ocorrências do verbo “saudar” e do substantivo “saudação”, vemos que as palavras usadas para saudar não eram tão importantes quanto os motivos e sentimentos expressos naquela saudação.

Exemplos de saudações

Encontramos, no Novo Testamento, vários exemplos de saudações, sem que as palavras “saudar” ou “saudação” sejam usadas. Examinando estes exemplos, descobrimos que havia duas formas principais que eram usadas nos dias apostólicos e que estão registradas na Bíblia. A primeira que vamos considerar é

A saudação grega

Os gregos usavam uma forma do verbo chairo (“regozijar-se” ou “alegrar-se”) para cumprimentar uns aos outros. Nos dias da vida terrestre do nosso Senhor esta saudação era muito usada, não só na Grécia, como também em toda a parte, inclusive na terra de Israel. A cultura grega era muito divulgada naquela época.

Já observamos casos em que esta saudação foi usada; o anjo Gabriel a usou ao saudar Maria (Lc 1:28) e os soldados romanos a usaram quando escarneciam do Senhor Jesus (Mt 27:29).

Quando Judas traiu o Senhor Jesus no Jardim do Getsêmani, ele usou esta mesma saudação grega. “Aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o” (Mt 26:49). A palavra traduzida por “eu te saúdo” é uma forma do verbo chairo, a saudação comum naqueles dias.

O Senhor Jesus também usou esta mesma forma de saudação. Quando Se encontrou com Maria Madalena e com a outra Maria, depois de ressuscitar dos mortos, disse: “Eu vos saúdo” (Mt 28:9). Usou a forma plural da palavra que Judas usara no Jardim.

O estudo destas saudações nos Evangelhos leva-nos à conclusão que a mesma forma de saudação foi usado pelo Senhor Jesus, pelo anjo Gabriel e também pelo traidor, assim como pelos soldados incrédulos que escarneciam do Senhor. Não havia, portanto, uma saudação especial, usada somente pelo povo de Deus.

Quando estudamos Atos dos Apóstolos, descobrimos que estes, juntamente com os anciãos da igreja em Jerusalém, usaram esta mesma saudação grega na carta que escreveram aos irmãos em Antioquia, Síria e Cilícia (At 15:23). A palavra traduzida “saúde”, neste versículo, é a mesma saudação grega que temos notado nos Evangelhos.

Encontramos outro exemplo desta saudação na carta escrita pelo comandante das forças armadas romanas, Cláudio Lísias, ao governador Félix. “Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saúde” (At 23:26).

Mais para o fim do Novo Testamento, encontramos esta saudação mais uma vez na carta de Tiago. Ele começou a sua carta dizendo: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde” (Tg 1:1).

O que agora notamos em Atos dos Apóstolos e na carta de Tiago confirma a conclusão do estudo desta saudação nos Evangelhos. Ela foi usada pelos apóstolos e anciãos da igreja em Jerusalém e por Tiago, inspirado pelo Espírito Santo. Foi também usada pelo comandante do exército romano, numa carta oficial a serviço do Império Romano. Portanto, nos dias apostólicos, os cristãos e os incrédulos usavam a mesma forma de saudação; não havia uma saudação especial para ser usada somente entre os cristãos.

A saudação hebraica

Notamos que os gregos usavam uma forma do verbo “regozijar-se” nas suas saudações; os hebreus usavam a palavra “paz”. Isto reflete algo da diferença entre os dois povos. Os gregos eram muito mais apegados aos prazeres que poderiam encontrar nesta vida e, consequentemente, saudavam uns aos outros com um desejo de alegrias. O judeu desejava algo mais profundo; desejava paz àquele a quem eles saudavam.

Havia algumas variações nas palavras usadas nesta forma de saudar, mas o desejo básico sempre era de paz. Quando o Senhor Jesus enviou os setenta discípulos a pregar em Israel, Ele disse-lhes: “Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa” (Lc 10:5).

O Senhor mesmo usou esta saudação depois da Sua ressurreição. Os discípulos estavam reunidos, com as portas cerradas, por medo dos judeus, quando o Senhor mesmo apareceu no meio deles e disse-lhes: “Paz seja convosco” (Jo 20:19). Em seguida, mostrou-lhes as Suas mãos e o lado, e disse-lhes outra vez: “Paz seja convosco” (v. 21). Oito dias depois, estavam outra vez reunidos quando o Senhor tornou a apresentar-se no meio deles, e disse: “Paz seja convosco” (v. 26).

Esta saudação, porém, não era usada somente ao se encontrarem, mas também no momento de se despedirem. Frequentemente encontramos referências a isto na Bíblia, como, por exemplo, quando o velho Simeão, ao ver o menino Jesus, disse: “Agora, Senhor, despedes em paz o Teu servo” (Lc 2:29). A pecadora que ungiu os pés do Senhor Jesus na casa de Simão ouviu o Senhor dizer: “A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc 7:50). A mulher que sofria de um fluxo de sangue ouviu as mesmas palavras: “Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou; vai em paz” (Lc 8:48). Os anjos também usaram esta forma de saudação, ao dizer: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra …” (Lc 2:14).

O resumo de tudo até agora é que não havia uma forma de saudação especial para os cristãos; eles usavam a mesma saudação que as demais pessoas usavam. Às vezes, usavam a forma grega e, às vezes, a forma hebraica, mas eram as saudações geralmente usadas no seu país e na sua época.

Consideremos, no próximo capítulo, o que nosso Senhor ensinou sobre este assunto.

O ensino do Senhor Jesus quanto à saudação

No “Sermão da Montanha” o Senhor Jesus deu um ensino claro a respeito das saudações. Leia Mateus 5:43-48.

Falando das nossas relações com os outros, o Senhor disse: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt 5:44). Quem age desta forma mostra que é filho do seu Pai celestial, pois Deus não faz acepção de pessoas. Ele faz com que o Seu Sol se levante sobre bons e maus, e manda a chuva descer sobre justos e injustos. Os publicanos não eram assim; amavam aqueles que os amavam (v. 46); mas os filhos de Deus deveriam refletir o caráter do seu Pai.

Outra maneira de mostrar que não fazemos acepção de pessoas é no saudar (veja v. 47). Os publicanos — as pessoas mais desprezadas na sociedade judaica — saudavam unicamente aos seus irmãos, porém os filhos de Deus não deveriam seguir tal exemplo. Deveriam saudar a todos, bons e maus, sem fazer acepção de pessoas; deveriam ser como seu Pai e não como os publicanos.

Neste ensino do Senhor Jesus vemos porque os discípulos não usavam uma forma especial reservada para os cristãos. Fazer assim seria fazer acepção de pessoas; seria desobedecer este ensino do Senhor; seria seguir o exemplo dos desprezíveis publicanos.

Consequentemente, os cristãos de hoje não podem usar uma saudação para o seu irmão na fé e outra para o incrédulo. As saudações que mencionamos no início deste tratado (“Paz do Senhor, irmão” e “Paz de Deus”) não devem ser usadas, pois o ensino do Senhor Jesus, em Mateus cap. 5, proíbe-nos de fazer distinção entre as pessoas. Temos de saudar a todos, irmãos e descrentes, com o mesma saudação. Não podemos seguir o exemplo dos publicanos.

A nossa saudação aqui no Brasil deve ser “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite”, conforme a ocasião. Saudando um irmão na fé ou um incrédulo, devemos usar estas mesmas saudações. Não devem ser, porém, saudações ocas ou hipócritas. Devem ser a expressão de um desejo sincero e cristão, que realmente procura o que há de melhor para cada pessoa.

“Se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:47-48).

O ósculo (“beijo”)

Desde os tempos mais remotos, o beijo foi usado na saudação. Mesmo no tempo dos apóstolos era uma saudação costumeira no oriente e, até hoje, continua sendo a saudação normal em outros países. Mostra respeito e afeição.

Vemos um exemplo desta forma de saudação na história de Absalão. Quando alguém se chegava a ele, para se inclinar, Absalão pegava-o pela mão e o beijava (veja II Sm 15:5). Encontramos um outro exemplo no Novo Testamento, quando o filho pródigo voltou ao lar. Seu pai, vendo-o de longe, correu e o beijou (Lc 15:20).

Quando o Senhor Jesus entrou na casa de Simão, o fariseu, este não O recebeu como costumava receber visitas. O Senhor reparou este fato e repreendeu a Simão, dizendo: “Entrei em tua casa e não me deste água para os pés … não me deste ósculo … não me ungiste a cabeça com óleo” (Lc 7:44-46). Água para os pés, um ósculo, e óleo para a cabeça teria sido o tratamento normal em tais circunstâncias.

Quando Judas achou o Senhor no Jardim, chegou-se a Ele para O beijar, e o Salvador lhe disse: “Judas, com um beijo trais o Filho do homem?” (Lc 22:48).

Paulo terminou quatro das suas cartas com uma exortação aos cristãos para saudarem uns aos outros com ósculo santo (Ro 16:16; I Co 16:20; II Co 13:12; I Ts 5:26) e Pedro termina a sua primeira carta, exortando os seus leitores a saudarem uns aos outros com um ósculo de amor (I Pe 5:14).

Vemos, nestes exemplos citados, que o ósculo era reconhecido como uma saudação normal, tanto pelos cristãos como pelos incrédulos. Nas cartas de Paulo e de Pedro, os cristãos foram exortados a usar esta forma comum de saudação, lembrando-lhes, porém, que deveriam fazer assim em santidade e amor. A única diferença entre o ósculo dado pelo cristão e o dado pelo incrédulo seria o sentimento que o levou a saudar. O ósculo do cristão teria de ser santo e a expressão de um verdadeiro amor cristão.

Isto confirma o que aprendemos sobre a saudação. Os cristãos não usavam palavras diferentes das demais pessoas, nem tão pouco outros gestos. A diferença estava no sentimento expresso na saudação.

Em nossos dias, no Brasil, o ósculo não é tão comum como é o abraço ou o aperto de mãos. O ensino bíblico, aplicado à nossa situação, é que nós devemos usar palavras como “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” e gestos como um abraço ou um aperto de mão. Este é o costume do nosso país e do nosso povo, e Deus não está impondo um costume oriental em povos de cultura ocidental. Mas Ele requer, isto sim, que o nosso abraço ou aperto de mão seja santo e a expressão sincera de amor cristão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário