Penso que sim, mas não tenho certeza ...

From rationalfatihs.com
Perdoem a ambiguidade do título deste artigo. Ou talvez não ... pois a intenção deste pequeno texto é justamente enfatizar que nosso conhecimento, sempre limitado, não nos permite saber tudo sobre todas as coisas.

Por defendermos  tão categoricamente a necessidade de obedecer ao Senhor em tudo, e que a ideia moderna de que qualquer forma de servir a Deus é aceitável, podemos passar a impressão de que não existe dúvida sobre nenhum detalhe das Escrituras, por menor que seja. Preciso confessar que não penso assim, e começo esta confissão com um exemplo que li hoje.


No Comentário Ritchie sobre Juízes (que pretendemos lançar em breve, se Deus permitir), o autor apresenta sua conclusão sobre o voto de Jefté, e logo acrescenta: “Entretanto, esta conclusão é apresentada humildemente perante o Senhor, reconhecendo que o ponto de vista sincero de outros bem pode ser o correto.”

Acrescento outros dois exemplos tirados das publicações desta editora.

Sobre a predestinação, o livro “A fé dos eleitos de Deus” apresenta um ponto de vista diferente do livro “A glória da Sua graça”. Ambos concordam com a verdade sublime da oferta gratuita e universal do Evangelho, vinda da parte de um Deus que não quer “que alguns se percam, mas que todos venham a arrepender-se” (II Pe 3:9), e “quer que todos os homens se salvem” (I Tm 2:4). Mas eles discordam em como esta verdade preciosa se harmoniza com a verdade da soberania absoluta de Deus (uma verdade também claramente apresentada na Bíblia, por exemplo em Efésios 1:4). O primeiro livro citado argumenta que eleição, no NT, não trata da escolha de pecadores para serem salvos, mas da escolha das bênçãos daqueles que são salvos; o segundo livro argumenta que a soberania de Deus e a responsabilidade do homem são duas verdades que parecem estar em conflito, mas que entenderemos na eternidade (algo que eu mesmo defendi num artigo publicado na revista “O Caminho” muitos anos atrás). Qual dos dois pontos de vista está correto? Sinceramente, não sei. Hoje, prefiro o primeiro, mas “esta conclusão é apresentada humildemente perante o Senhor, reconhecendo que o ponto de vista sincero de outros bem pode ser o correto.”

Outro exemplo foi-me apontado recentemente pelo irmão Ezequiel. No livro “A glória da igreja local” (pág. 33), o autor sugere que todos os dons espirituais mencionados em I Co 12:28 são dons temporários, enquanto que o livro “Dons espirituais” argumenta que alguns dons mencionados neste versículo são temporários, outros são permanentes. Quem está certo? Pessoalmente, prefiro a segunda sugestão, mas “esta conclusão é apresentada humildemente perante o Senhor, reconhecendo que o ponto de vista sincero de outros bem pode ser o correto.”

Estes três exemplos bastam para mostrar que não temos certeza sobre tudo. Quer dizer, então, que estou defendendo o relativismo? Eu estou certo, você está certo, todo mundo está certo, e a verdade realmente não existe? Certamente que não. Tenho plena convicção de que a Palavra de Deus é “a verdade” (João 17:17), e que através dela o Espírito Santo nos guia em toda a verdade (João 16:13). Tenho plena convicção que se eu e você interpretamos a Bíblia de forma diferente, um de nós dois está errado. E creio também que na maioria dos casos em que há diferença de opinião entre os salvos, um espírito submisso ao que está escrito (e não um desejo de defender a minha opinião) resolverá todos os conflitos.

Mas quanto mais estudamos a Bíblia, mais entendemos que ela é profunda demais para que possamos esgotar seus ensinos. Aquilo que precisamos saber para servir a Deus fielmente não nos é oculto; mas há muitos outros detalhes deste livro precioso que estão além da nossa compreensão. Há coisas que a Bíblia simplesmente não revela (como o autor da epístola aos Hebreus, por exemplo), e há outras em que precisamos admitir que simplesmente não temos certeza.

Na tradução de livros precisamos ainda lidar com outro princípio: a fidelidade ao original. Ao traduzir um livro, não posso mudar aquilo com o qual não concordo. Infelizmente temos exemplos no Brasil (até entre editoras conceituadas) de falta de fidelidade na tradução de livros sobre a Bíblia, o que é lamentável. Ou traduzo aquilo que o autor escreveu, ou deixo o livro de lado. Às vezes, porém, nos deparamos com um livro excelente, que imaginamos será muito útil ao povo brasileiro, mas que contém uma ou outra sugestão sobre a qual não concordamos plenamente. Se não for algo que afeta os princípios básicos da nossa fé, ou as verdades preciosas sobre o funcionamento de uma igreja local, mas for uma questão onde pode haver um pouco de dúvida, podemos julgar que seria melhor traduzir o livro com esta sugestão que consideramos equivocada, do que não traduzir o livro. Nem sempre é uma decisão fácil.

Em suma: a Bíblia tem uma resposta clara para todas as minhas dúvidas sobre como servir a Deus hoje (II Tm 3:16-17), mas ela não promete esclarecer tudo aquilo sobre o qual tenho curiosidade. Jefté realmente sacrificou sua filha como holocausto, ou apenas a separou para ser uma virgem perpétua? Neste, e em muitos outros casos, precisamos humildemente reconhecer “perante o Senhor ... que o ponto de vista sincero de outros bem pode ser o correto.”


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