A Música

e seu lugar na obra de Deus




Introdução

Logo nos primórdios da história humana, o homem descobriu as alegrias e as influências da música. Jubal, o sexto depois de Adão, é mencionado na Palavra de Deus como “o pai de todos os que tocam harpa e orgão” (Gn 4:21).

Antes, porém, que o homem descobrisse tais alegrias, os anjos as conheciam; cantavam alegremente e rejubilavam quando Deus criou a terra (Jó 38:7).

As palavras “música”, “músicos”, “cantores” e outras semelhantes, ocorrem quase 600 vezes na Bíblia, e dois terços de todos os seus livros fazem menção da música. Tais números indicam a grande importância deste assunto para o povo de Deus.

O Velho Testamento

A alegria da música

A música estava presente nas festas familiares, mesmo nos tempos dos patriarcas. Veja, por exemplo, como Labão queria despedir seu genro, Jacó, com “alegria, e com cânticos, e com tamboril e com harpa” (Gn 31:27).

Destacava-se também em momentos de grande alegria nacional, como vemos no dia da vitória sobre os exércitos de Faraó. Nas praias do Mar Vermelho, Miriã, irmã de Moisés, “tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças” (Êx 15:20).

A influência da música

Os antigos sabiam muito bem do poder que a música exerce na alma humana. Quando o rei Saul sofria de um espírito mau, da parte do Senhor, seus servos chamaram a Davi, para que tocasse com sua harpa na presença do rei, e assim aliviasse seu sofrimento (I Sm 16:14-23).

Vemos outro exemplo da influência da música na ocasião em que os reis de Israel, de Judá e de Edom procuraram o profeta Eliseu. Este pediu que trouxessem um tangedor (um harpista), e sucedeu que enquanto este tocava, a mão do Senhor veio sobre o profeta, dando-lhe uma mensagem para os reis (II Rs 3:15).

A música no Templo

A partir dos dias de Davi, a música passou a ter um lugar muito mais destacado entre o povo de Deus. Davi “separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutun, para profetizarem com harpas, com alaúdes, e com saltérios” (I Cr 25:1).

É importante notar, porém que foi o Senhor quem estabeleceu este ministério de música. Davi não o organizou segundo o seu bel prazer, mas sim, por mandado do Senhor (I Cr 28:19).

Vemos este fato outra vez nos dias de Ezequias. Quando o Templo foi purificado, e o culto restabelecido, os levitas se puseram “na casa do Senhor com címbalos, com alaúdes, e com harpas, conforme o mandado de Davi, porque este mandado veio do Senhor, por mão de Seus profetas” (II Cr 29:25). Assim como Deus mostrara a Moisés as instruções quanto ao Tabernáculo e suas cerimônias, revelou a Davi Seu plano para o templo, inclusive a sua parte musical. Tudo foi por ordem do Senhor.

Os Salmos

O livro dos Salmos é um livro de cânticos, inspirados pelo Espírito Santo. Uma leitura, mesmo superficial, deste livro, revela como Deus cuidou dos mínimos detalhes; não apenas deu as palavras, mas forneceu até instruções quanto aos instrumentos que deveriam ser usados, bem como acerca das vozes dos cantores. Nada deixou a critério dos homens; tudo foi estabelecido por mandado do Senhor. Considere os seguintes Salmos:
  • Salmo 4: “para o cantor–mor, sobre Neginote”;
  • Salmo 5: “para o cantor–mor, sobre Neilote”. A palavra neginote indica um instrumento de cordas, e neilote um de sopro. Nestes dois Salmos, portanto, vemos instruções dadas por Deus quanto aos instrumentos que deveriam acompanhar estes Salmos.
  • Salmo 6: “para o cantor–mor em Neginote, sobre Seminite”;
  • Salmo 46: “Cântico sobre Alamote”. Nestes dois Salmos temos instruções para os cantores, pois a palavra seminite indica o baixo, ao passo que alamote provavelmente significa o soprano.

Recapitulação

Temos verificado que cânticos, acompanhados de vários instrumentos musicais, ocupavam um lugar muito importante nos ajuntamentos do povo de Deus. Observamos, também, que tudo foi estabelecido por mandado do Senhor. Ele determinou quem deveria participar, e como, e quando, e onde. Nunca havia liberdade para qualquer um levar qualquer instrumento ao Templo e “apresentar um número”. Tudo obedecia a um plano estabelecido por Deus.

O Novo Testamento

Quando o leitor da Bíblia passa do Velho para o Novo Testamento, logo percebe um contraste muito grande. Percebe que Deus proíbe certas coisas no Novo Testamento que Ele próprio havia ordenado no Velho! A circuncisão, os sacrifícios de animais, e a observância de dias, são alguns exemplos disto.

O papel da música apresenta outro contraste. Temos observado como, no Velho Testamento, Deus estabeleceu um ministério de música nos ajuntamentos do Seu povo (veja I Cr 25:1, etc). Não encontramos, porém, no Novo Testamento, semelhante ministério.

Há, na verdade, várias listas dos dons espirituais que Deus tem dado aos Seus, visando “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério” (Ef 4:12), mas não há qualquer menção de dons musicais nestas listas. Evidentemente, não fazem parte do equipamento dado por Deus aos Seus servos hoje.

Não é que o Novo Testamento não fala da parte musical das reuniões das igrejas. Fala. Não há, porém, menção de instrumentos ou de corais neste contexto. Pelo contrário, o Novo Testamento apresenta um modelo de cânticos congregacionais, sem o acompanhamento de instrumentos.

Vamos, agora, examinar

As referências à música no Novo Testamento.

A música é mencionada com bastante frequência no Novo Testamento, com vários cânticos e diversos tipos de instrumentos.

Lemos, por exemplo, dos meninos assentados nas praças, cantando e tocando flautas (Mt 11:17), e da música e danças quando o “pródigo” voltou (Lc 15:25).

O Senhor Jesus e os discípulos cantaram um hino antes de saírem do cenáculo (Mt 26:30), e Paulo e Silas cantaram hinos a Deus na prisão em Filipos (At 16:25). Encontramos também algumas citações do Velho Testamento que terão o seu cumprimento ainda no futuro, durante o Milênio (Rm 15:9 e Hb 2:12). Vários tipos de instrumentos são mencionados no livro de Apocalipse, mas geralmente são simbólicos. Há também neste livro diversos cânticos descrevendo cenas no céu.

Deixando estas referências, e outras semelhantes, descobrimos que restam apenas três versículos no Novo Testamento que falam diretamente da parte musical das reuniões das igrejas. Vamos examiná-los.

I Coríntios 14:15

“Cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento”. O verbo traduzido “cantarei” (psallo, no grego) ocorre 5 vezes no Novo Testamento e significa “salmodiar, cantar um hino, cantar louvores”[1]. O comentarista W. E. Vine escreveu: “A palavra psallo primeiramente significava tocar um instrumento de cordas, ou cantar acompanhado de uma harpa. Mais tarde, e no Novo Testamento, veio a significar simplesmente louvar, sem ser acompanhado de um instrumento”.[2] Outro erudito na língua grega escreveu: “A palavra psallo tem como significado primário tanger ou vibrar com os dedos, como se faria com um instrumento de cordas. No Novo Testamento significa simplesmente cantar, ou cantar louvor. O contexto de I Coríntios 14:15 elimina toda ideia de um instrumento musical. O cantar é com o espírito e com o entendimento, qualidades que não se encontram numa harpa ou orgão”.[3]

Observe que as três autoridades linguísticas citadas concordam completamente quanto ao significado deste verbo. Psallo, no tempo do Novo Testamento, significava simplesmente cantar ou cantar louvor. As diversas versões do Novo Testamento em Português que possuímos confirmam este fato, pois os tradutores nunca traduziram psallo por tocar ou tanger.

Efésios 5:19

“Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.” Neste versículo, psallo é traduzido por salmodiando. Além disto, o Espírito Santo usa outro verbo, ado (cantar). A diferença entre estes dois verbos é pouca; talvez corresponda à distinção entre os substantivos “salmos”, “hinos” e “cânticos”.

Devemos notar que não há instruções quanto ao uso de instrumentos neste versículo , nem tão pouco uma sugestão de que o cântico deva ser restrito a cantores treinados. Pelo contrário, a exortação é dada a todos, indicando um cântico congregacional, sem o acompanhamento de instrumentos.

Colossenses 3:16

“…com salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando ao Senhor com graça em vosso coração.” Este versículo é paralelo com Ef 5:19, que já comentamos, porém o Espírito Santo não usa o verbo psallo aqui; somente ado. Conforme este versículo, o acompanhamento que Deus quer aos nossos cânticos congregacionais é graça no coração.

Psallo

É importante notar o significado do verbo grego psallo, e seu uso no Novo Testamento. Primeiramente significava “puxar”, descrevendo o ato de puxar a corda de um arco para atirar uma flecha. Depois, passou a ser usado no sentido de “zunir”, descrevendo o zunido da corda do arco. Não demorou, então, a ser usado para descrever o ato de puxar as cordas de uma harpa, adquirindo o significado de “tocar”. Seguindo este pensamento musical, ele veio a significar “cantar louvor”, ou simplesmente “cantar”.

O desenvolvimento no significado de palavras é um fato conhecido e incontestável. O contexto em que encontramos uma palavra, mais do que sua raiz etimológica, determina seu significado.

Não há dúvida que o significado de psallo no Novo Testamento é simplesmente cantar ou cantar louvor. Os eruditos da língua grega que já citamos confirmam isto, mas a prova conclusiva é o contexto em que o Espírito Santo usa esta palavra nas Escrituras. Veja Rm 15:9, I Co 14:15, Ef 5:19 e Tg 5:13. Não há coisa alguma no contexto destes versículos que sugere o acompanhamento de instrumentos; muito pelo contrário, tal ideia é claramente eliminada, como já observamos, em I Cr 14:15.

Algumas observações

1. O Templo e o Tabernáculo

A inauguração do Templo foi realmente impressionante. Os levitas, “vestidos de linho fino, com címbalos, e com alaúdes, e com harpas, estavam em pé para o oriente do altar; e com eles até cento e vinte sacerdotes, que tocavam as trombetas. Eles uniformemente tocavam as trombetas, e cantavam para fazerem ouvir uma só voz, bendizendo e louvando ao Senhor; e levantando eles a voz com trombetas, e címbalos, e outros instrumentos músicos … a casa se encheu de uma nuvem, a saber, a casa de Deus … porque a glória do Senhor encheu a casa de Deus” (II Cr 5:12-14). E este ministério da música continuou como parte importante nos ajuntamentos do povo de Deus no Templo (veja II Cr 29:25, Ne 12:27-47, etc).

No Tabernáculo, porém, não foi assim. Não havia cantores e nem instrumentos musicais para alegrar as suas cerimônias. Usavam apenas as trombetas em certas ocasiões, para transmitir ordens e avisos à congregação (Nm 10:1-10).

É importante notar esta distinção; não foi por acaso.

O Templo foi erguido quando Israel já estava seguro e tranquilo na posse da sua herança. Foi a casa de Deus no meio de um povo que já desfrutava das bençãos prometidas. É uma figura do Milênio, quando Israel, restaurado à sua terra, estará seguro, cada um debaixo da sua figueira, e um filho de Davi no trono de seu pai em Jerusalém.

O Tabernáculo, porém, foi erguido no deserto. Foi a casa de Deus no meio de um povo que peregrinava e pelejava. Prefigura as igrejas de Deus, onde o Senhor habita ainda hoje, no meio de um povo peregrino (Mt 18:20).

Veja a precisão das Escrituras. Apesar do lugar importante que Deus deu à música no Velho Testamento, ela não foi usada no Tabernáculo, pois este é uma figura das igrejas de Deus em nossos dias.

2. O lugar dos músicos e cantores no Templo

Há duas palavras gregas traduzidas “templo” no Novo Testamento: heiron, que descreve o complexo todo (a casa com todas as suas dependências) e naos, que descreve apenas o lugar santo e o lugar santíssimo.

Quando o Novo Testamento usa o Templo como figura da igreja, sempre emprega a palavra naos, nunca heiron. Veja, por exemplo, I Co 3:16: “Não sabeis vós que sois o templo [naos] de Deus”.

Já temos observado que os músicos e cantores ficavam no lado oriental do altar (II Cr 5:12), ou seja, no pátio dos sacerdotes; eles não atuavam no naos. É importante notar isto, pois o naos prefigura as igrejas de Deus em nossos dias, e naquele lugar não havia nem instrumentos musicais, nem corais.

Estes fatos, tirados do Velho Testamento, confirmam o ensino que já observamos no Novo, que não há lugar para instrumentos ou corais nas reuniões do povo de Deus hoje.

3. O uso da música no Templo

Os instrumentos de música foram usados no Templo exclusivamente para louvor e adoração; nunca como meio de atrair os gentios, ou de disseminar entre estes a Palavra do Senhor. Se aceitamos instrumentos e corais nas nossas reuniões hoje, porque foram usados no Templo, a coerência exige que sejam usados somente no louvor e adoração; nunca na evangelização! E creio que nenhum cristão gostaria de ouvir um órgão ou um coral durante a Ceia do Senhor! A própria sensibilidade espiritual de cada crente rejeita tal ideia.

Meus irmãos, se instrumentos e corais não ajudam na adoração, como poderão ser úteis nas demais reuniões?

4. A música na Grande Babilônia

No livro de Apocalipse, a voz de um forte anjo anuncia a queda final da Grande Babilônia, dizendo: “em ti não se ouvirá mais a voz de harpistas, e de músicos, e de flauteiros, e de trombeteiros …” (Ap 18:22). Estas palavras revelam que instrumentos musicais serão uma característica da futura igreja falsa, a Grande Babilônia. Uma comparação do cap. 17 de Apocalipse com o cap. 21 do mesmo livro, deixará bem claro que a Grande Babilônia é, de fato, a igreja falsa, impura e infiel.

Já observamos que não há menção de instrumentos musicais nem corais nas atividades das igrejas de Deus no Novo Testamento, mas tão logo se menciona a impostora, a igreja falsa, estas coisas aparecem.

A história da Igreja

Nos Atos dos Apóstolos temos as primeiras páginas da história da igreja, relatadas pelo Espírito Santo. Seus primeiros pregadores eram ex–judeus, homens que conheciam bem o Templo e suas cerimônias; sabiam do poder da música sacra. Contudo, não usaram instrumentos musicais na sua evangelização, nem tão pouco no seu louvor. Não treinaram corais.

A história posterior revela que os cristãos continuaram assim durante muito tempo. O livro The Ministry of Music (O Ministério da Música) diz: “A música das igrejas cristãs primitivas era inteiramente vocal … Na verdade, os [assim chamados] pais da igreja, como Clemente de Alexandria, Crisóstomo, Ambrósio, Agostinho, colocaram-se fortemente contra o uso de instrumentos com o canto sagrado”[4].

A primeira mudança

A primeira mudança em relação à música apareceu por volta do século IV, quando corais começaram a participar das reuniões de algumas igrejas. A introdução destes corais, porém, fazia parte de um “pacote” maior. Foi nesta época que a distinção entre “clero” e “leigo” começou a aparecer. O direito de pregar, ensinar, e até de orar audivelmente nas reuniões, ficou restrito àqueles que foram considerados aptos. Ao mesmo tempo, o privilégio de cantar nas reuniões foi reservado para os cantores treinados; apareceram os corais.

Apesar deste desvio tão grande do modelo bíblico, as igrejas continuaram a rejeitar o uso de instrumentos musicais. Historiadores dizem que o Papa Vitalino, do século VII, foi o primeiro que tentou introduzí–los nas igrejas. Seu esforço não alcançou êxito, pois 600 anos mais tarde, o famoso teólogo Católico Romano, Tomás de Aquino (século XIII) escreveu: “A nossa igreja não usa instrumentos de música para que não pareça que estamos judaizando”5. A declaração do historiador Presbiteriano, Professor Giberdeau, confirma isto: “… tem sido provado que a igreja não teve instrumentos de música durante 1.200 anos”.

A Reforma

Na época da chamada “Reforma” (século 16), o órgão já fazia parte do culto da igreja Católica Romana. Os reformadores (Lutero, Calvino e outros), porém, no seu empenho de voltar à Bíblia, o rejeitaram. A este respeito, Calvino disse: “Instrumentos de música não tem lugar, mais do que o queimar de incenso, ou de outra sombra qualquer da lei”[6]. Promoveram nas igrejas o cântico congregacional, sem acompanhamento de instrumentos.

Depois da Reforma

Foi no século 19 que o órgão, já firmemente estabelecido na igreja Católica Romana, finalmente achou um lugar entre os “evangélicos”. Em 1873, o evangelista americano, D. L. Moody, começou suas “campanhas evangelísticas” na Inglaterra, na Escócia e na Irlanda, causando um impacto muito grande. A novidade nestas reuniões foi a participação do músico Ira D. Sankey, tocando seu órgão e cantando.

Sem dúvida, foram estas apresentações que finalmente abriram a porta, e logo o movimento evangélico estava repleto de cantores e instrumentos musicais. Apenas cinco anos após as apresentações de Sankey, William Booth fundou o Exército da Salvação, e foi muito além de Sankey; ele incentivou seus seguidores a usarem todos os seus instrumentos para se alegrarem perante o Senhor.

Devemos salientar, porém, que nem todos os cristãos do século 19 foram levados por esta onda. J. N. Darby, um dos mais conhecidos ensinadores entre igrejas que reuniam somente ao Nome do Senhor Jesus, foi questionado, em 1881, a respeito da música que penetrava os meios “evangélicos”. Respondeu: “A atração mundana tomou o lugar da graça de Cristo. Você porventura já leu que Cristo ou Paulo usaram música ou uma banda para atrair as pessoas?”[7]

Uma pergunta

Temos examinado algumas referências à música na Bíblia; temos visto, também, a atitude dos cristãos através dos séculos, e temos verificado que os apóstolos não usaram instrumentos musicais nas suas reuniões, nem tiveram a participação de corais. Verificamos que sucessivas gerações de cristãos seguiram o mesmo modelo. Não há dúvidas quanto a isto. É um fato, comprovado pela Bíblia e pela história.

Este fato incontestável, porém, levanta uma pergunta séria: por que aqueles servos de Deus não usaram instrumentos musicais, nem corais nas suas reuniões?

Pense bem. Será que não perceberam o poder da música? Será que não tiveram condições financeiras para adquirir instrumentos? Será que não havia entre eles pessoas dotadas para cantar ou tocar? Ou será que eles sabiam algo que muitos esquecem hoje?

A resposta

Creio que a resposta está na última pergunta. Os apóstolos sabiam de algo muito importante, que muitos em nossos dias esquecem. Sabiam que Deus firmou um novo concerto com Seu povo. O velho concerto já passou!

Havia muita coisa que impressionava no velho concerto: um Templo magnífico, com seus oficiais (sacerdotes e levitas), seus sacrifícios de animais junto com o queimar de incenso e o cântico dos corais uniformizados, acompanhados de muitos instrumentos de música. Tudo isto emocionava; impressionava os sentidos; era muito sensual (no bom sentido da palavra).

Os termos do novo concerto, porém, são diferentes. O sensual dá lugar ao espiritual. Deus procura adoradores que O adorem em espírito e verdade (Jo 4:24). Não há, no novo concerto, um templo material, nem sacrifícios de animais, nem incenso, nem corais e instrumentos de música. Os termos do novo concerto são diferentes.

Os apóstolos sabiam deste fato. Os cristãos, durante muitos séculos, lembravam deste fato, e serviam a Deus nos termos do novo concerto. Foi por esta razão que consistentemente recusaram os instrumentos musicais.

Conclusão

Olhamos para trás, e vemos que músicos e cantores tiveram um lugar importante no judaísmo. Olhamos para a frente, e vemos que terão novamente um lugar destacado na grande Babilônia. Não há menção deles, porém, no modelo que o Novo Testamento apresenta para as igrejas nesta dispensação presente.

Relíquia do Judaísmo

Na melhor das hipóteses, a presença de instrumentos musicais e corais nas reuniões de uma igreja, é uma mistura de dois concertos. Introduzir estas práticas na igreja, é introduzir o judaísmo no cristianismo, e a carta aos Gálatas proíbe tal coisa.

Os dois filhos de Abraão, Ismael e Isaque, são dois concertos (Gl 4:24). Não podem conviver. A ordem do Senhor foi clara: “Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre” (Gl 4:30). A aplicação aos instrumentos musicais e aos corais não pode ser ignorada. Somos do novo concerto; lancemos fora o que pertence ao velho.

Sombra da Babilônia

Visto de outro ângulo, aquilo que pode ser considerado um relíquia do obsoleto judaísmo, assume a forma de sombra da Grande Babilônia do futuro. Ela já está lançando as suas influências sobre o mundo, e procura enredar o povo de Deus. Satanás é muito astuto, e procura implantar nas igrejas as características da Babilônia, assim demovendo–as da simplicidade que está em Cristo (II Co 11:3). Não ignoremos os seus ardis (II Co 2:11).

Irmãos, instrumentos de música e corais pertenciam ao Judaísmo; terão lugar ainda na Grande Babilônia, mas certamente não devem ter lugar num trabalho cristão.

R. E. Watterson

Referências bibliográficas

[1] RIENECKER/ROGERS Chave Linguística do Novo Testamento Grego. 1ª ed., 2ª imp. Edições Vida Nova, 1988. p. 322.
[2] VINE, W. E. First Corinthians — Local Church Problems. 1ª ed. Oliphants Ltd, 1951. p. 191.
[3] RODGERS, W e HOSTE, W. Bible Problems and Answers. 1ª ed. John Ritchie Ltd, 1957. p. 333.
[4] OSBECK, K. E. The Ministry of Music, Kregel, 1975. p. 20.
[5] BINGHAM. Antiquities, Vol. 3, p. 137.
[6] CALVIN, J. Commentary on Psalms, p. 33.
[7] DARBY, J. N. Letters of J.N.D., Vol. 3, Stow Hill Bible and Tract Depot. p. 480

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