Explorando os Evangelhos

Transcrição da Introdução e do Capítulo 1 deste livro publicado pela eSd, que apresenta, de maneira preciosa, os quatro retratos do nosso amado Senhor apresentados por Mateus, Marcos, Lucas e João.

Introdução

Não é de se surpreender que a adoração, na Bíblia, é apresentada como o privilégio mais sublime na vida cristã. Em João 4, que talvez é o capítulo mais conhecido do Novo Testamento que trata deste assunto, o Senhor Jesus se dirigiu à mulher samaritana dizendo: “Vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para Seus adoradores” (Jo 4:23).


É interessante observar o conteúdo desta conversa que fez com que aquela mulher voltasse à cidade exclamando alegremente: “Vinde comigo, e vede um homem …” (v. 29). Certamente quem quiser ser um verdadeiro adorador terá que contemplar o único Homem perfeito e justo, o nosso amado Salvador. Se há neste capítulo algo notável é o fato de que o Senhor Jesus fala, em primeiro lugar, de salvação, o dom de Deus (v. 10); depois de adoração, a vontade de Deus (v. 23); e finalmente, de evangelização, o mandamento de Deus (v. 35). Esta ordem tem que ser fielmente seguida se desejarmos contemplar as perfeições e belezas do nosso amado Salvador. Para adorar em espírito e em verdade é necessário conhecer “o dom de Deus”. Somente os verdadeiros adoradores terão condições de servir “no seu trabalho” (v. 38).

A Bíblia ensina esta verdade fundamental, que todos os cristãos são sacerdotes de Deus. Cada igreja local deveria testemunhar desta verdade, na prática, recusando o reconhecimento de qualquer outro sacerdócio e incentivando todos os irmãos a priorizarem um dos privilégios mais sublimes da vida cristã.

A nação de Israel era dividida em grupos e composta por soldados, levitas e sacerdotes — cada grupo funcionava em obediência à vontade do Senhor.

“Da idade de vinte anos para cima, todos os capazes de sair à guerra em Israel: a esses contareis segundo os exércitos, tu e Arão” (Nm 1:3).

“Faze chegar a tribo de Levi, a põe-na diante de Arão, o sacerdote, para que o sirvam … para ministrar no tabernáculo” (Nm 3:6-7).

“Ofereceram os príncipes para a consagração do altar, no dia em que foi ungido; sim apresentaram a sua oferta perante o altar” (Nm 7:10).

“Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão e seus filhos com ele, dentre os filhos de Israel, para me oficiarem como sacerdotes” (Êx 28:1).

Só os sacerdotes podiam entrar no lugar santo e oferecer os sacrifícios prescritos pela Lei. Eles ocupavam uma posição privilegiada (Lv 8:6-24), usavam vestes diferentes (Lv 8:13), tinham privilégios especiais (Êx 28:43; 30:7), comida diferente (Lv 6:16, 17, 26), e responsabilidades específicas (Lv 6:12; 10:11). Mas, hoje em dia, todos os cristãos são sacerdotes, segundo o ensino do Novo Testamento. Aprendemos que o sacerdócio e os sacrifícios do passado eram:
  • uma “parábola para a época presente” (Hb 9:9);
  • uma “figura do verdadeiro” (Hb 9:24);
  • uma “sombra dos bens vindouros não a imagem real das cousas” (Hb 10:1).
Naquela época, era impossível funcionar como soldado, levita e sacerdote ao mesmo tempo. Ninguém tinha condições para tal. Hoje, porém, cada irmão é equipado para lutar, trabalhar e adorar “em espírito e em verdade”. Por isso somos exortados e incentivados pelos apóstolos: “as armas da nossa milícia não são carnais, e, sim poderosas …” (II Co 10:4); “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo” (Ef 6:11); “Participa dos meus sofrimentos como bom soldado” (II Tm 2:3).

Há trabalho pronto para cada cristão na família de Deus. “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6:10); “… não nos cansemos de fazer o bem …” (Gl 6:9). Fomos feitos trabalhadores. Portanto, o privilégio mais sublime da vida cristã é, sem dúvida, apresentar a nossa adoração a Deus. Eu repito, todos os cristãos são sacerdotes. Ouçam as palavras do apóstolo Pedro: “Vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus” (I Pe 2:5); “… por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o Seu nome” (Hb 13:15).

Fomos salvos, não para ficarmos livres, mas fomos salvos para sermos sacerdotes e adoradores verdadeiros. “… Aquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, e sacerdotes para o seu Deus e Pai” (Ap 1:6).

Este trecho revela o desejo de Deus para conosco. Fomos libertados e salvos para que nos tornemos verdadeiros adoradores, ocupados com o mais sublime privilégio dos filhos de Deus na Terra. A obra redentora do Senhor Jesus tinha em vista este propósito de Deus, o aperfeiçoamento de cada um dos Seus filhos para funcionarem como sacerdotes.

“… tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande Sumo Sacerdote … acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça …” (Hb 4:14;16).

“… este … continua para sempre, tem o Seu sacerdócio imutável” (7:24).

“… possuímos tal sumo sacerdote que Se assentou à destra do trono da Majestade nos céus” (8:1).

“… e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos com sincero coração, em plena certeza de fé” (10:21-22).

Que necessidade temos de outro, além do nosso Sumo Sacerdote? Qual deveria ser a nossa atitude para com o mundo e as religiões dos homens? “Saiamos, pois, a Ele, fora do arraial, levando o Seu vitupério” (Hb 13:13).

Cap. 1 — Os adoradores

Ao escrever o primeiro livro do Novo Testamento o evangelista Mateus, aquele que mais destacou a importância da adoração, relatou oito ocasiões quando o Senhor Jesus recebeu adoração:
  • dos magos (1:12);
  • do leproso (8:2);
  • do chefe da sinagoga (9:18);
  • dos discípulos (14:33);
  • da mulher Cananéia (15:21-28);
  • da mãe de Tiago e João (20:22-28);
  • das duas Marias (28:1);
  • dos discípulos (28:16-20).
Podemos considerar estas manifestações como dois ciclos, ou dois grupos de quatro. A última manifestação de cada grupo foi dos discípulos que eram judeus. A primeira manifestação de cada grupo foi de alguns gentios: os magos do cap. 2 e a mulher cananéia do cap. 15. Nisto temos uma previsão do dia de Pentecostes, quando foi dado a todos beber de um só Espírito: “Pois em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, que gregos, quer escravos, quer livres” (I Co 12:13).

Os magos (2:1-12)

A adoração dos gentios (magos) tem algumas características que devemos considerar e, se for possível, imitar. Se desejarmos entender o valor da adoração que eles ofereceram, teremos que levar em conta os seus motivos. O leproso do cap. 8 queria ficar limpo. Jairo, no cap. 9, queria que a sua filha fosse curada. Os discípulos, no cap. 14, expressaram sua profunda gratidão pela proteção do Senhor durante a tempestade. A mulher Cananéia, no cap. 15, queria que a sua filha fosse libertada. A mãe de Tiago e João, no cap. 20, queria que os seus filhos tivessem poder e influência no reino futuro. Finalmente, as duas Marias e os discípulos celebraram a ressurreição do Senhor Jesus. Mas os magos, deixando suas casas e famílias, fizeram uma viagem longa, cansativa e até perigosa, simplesmente porque Ele era digno de receber adoração. Na medida em que eles se aproximavam da cidade, ficavam cada vez mais longe das coisas do mundo. Olhando “para o alto” e “não nas coisas que são aqui da terra” (Cl 3:2), chegaram à presença do Rei.

O que tornou a adoração deles ainda mais impressionante foi a atitude do povo na cidade de Jerusalém. O rei desconhecia os acontecimentos, porque não conhecia as Escrituras. Os líderes religiosos tinham um bom conhecimento das Escrituras, mas não criam no seu ensino, por isso não puderam discernir, nos fatos, o cumprimento das profecias divinas. Infelizmente, o mesmo acontece hoje em dia. É triste e lamentável constatar que muitos cristãos, e, entre eles, muitos líderes, desconhecem a Palavra, ou não confiam nela. O resultado disto é o estado de fraqueza em que se encontram.

Como é necessário imitar os magos no seu desejo de conhecer e entender o plano de Deus, e na sua determinação e esforço para alcançar este conhecimento! Como é edificante ler sobre os magos e constatar que eles foram recompensados pelo seu esforço! Eles não eram judeus e, portanto, não tinham o privilégio de possuir o conhecimento que os judeus tinham. Contudo, exercendo a sua fé e obediência, de acordo com a pouca luz que tinham, foram abençoados por Deus e encontraram o recém-nascido Messias. O texto sagrado diz que “vendo eles a estrela, alegraram-se com grande e intenso júbilo … e entrando na casa, viram o menino … prostrando-se O adoraram e abrindo os seus tesouros entregaram-lhe suas ofertas … ouro, incenso e mirra” (Mt 2:10-11).

Eles voluntariamente entregaram as coisas mais preciosas que possuíam e, profundamente agradecidos pelo privilégio que tiveram, “regressaram por outro caminho à sua terra” (v. 12). Esta é a adoração verdadeira: a superabundância de um coração ocupado somente com as belezas, glórias e perfeições do nosso amado Salvador. Que haja hoje, irmãos, em nossos corações, o mesmo espírito de adoração que foi demonstrado pelos magos, a mesma disposição e determinação. Sabendo que o custo pode ser elevado, disponhamo-nos a pagá-lo, como fez o rei Davi que afirmou: “não oferecerei ao Senhor meu Deus holocaustos que não me custem nada” (II Sm 24:24).

Uma vez que você tenha visto as glórias do Salvador, você nunca mais será o mesmo; enlevado pela visão dEle, as outras coisas não mais o atrairão como antes. Você já viu as perfeições do Amado? Se a resposta for sim, então você desejará que outros também as vejam. “O Pai procura adoradores.“ “Os olhos levantamos até os altos céus; No trono ali miramos, igual ao santo Deus, Um homem, elevado à glória divinal, A Quem o Pai tem dado poder imperial.“ (Hinos e Cânticos 546)

O leproso (8:1-4)

A narrativa do Evangelho segundo Mateus apresenta, no cap. 8:2, a segunda manifestação de adoração. “E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me.” É impressionante o contraste entre as multidões (v. 1) e o leproso solitário (v. 2). Mateus, o evangelista, nos leva a parar e contemplar as atividades tanto das multidões quanto do leproso. Ele diz que grandes multidões O seguiam e que um leproso O adorou. Aqui há um contraste: as multidões estavam seguindo e o leproso aproximou-se com um único propósito. Ele nem pensou nas grandes multidões ao seu redor. Sua única preocupação era chegar à presença do único que é digno de receber adoração: “eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-O …” (v. 2).

O evangelista Marcos nos informa que ele se pôs de joelhos (Mc 1:40). Lucas, o médico, nos conta que, “ao ver a Jesus, prostrando-se com o rosto em terra, suplicou-lhe…” (Lc 5:12). Ele rogou: “Senhor, se quiseres, podes purificar-me …” (v. 2). Ele não tinha dúvidas de que o Senhor podia purificá-lo, mas não sabia se era da Sua vontade. Ele pediu a purificação e não a cura porque ele sabia que a lepra, que era incurável, o tornara impuro e, portanto, impossibilitado de reunir-se com o seu povo para adorar a Deus.

O Senhor Jesus “estendendo a mão tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo!” (v. 3). Seu toque ainda possui o antigo poder. Ele nunca muda e este fato é um grande consolo para todo o povo de Deus. O toque não era necessário para a cura, pois mais tarde o Senhor curou dez leprosos apenas com uma palavra; mas quem pode imaginar o que aquele toque significou para aquele homem que todos eram proibidos de tocar? No ato reverente daquele leproso, que aconteceu depois do início do ministério público do Senhor, aprendemos que a adoração está ligada com purificação.

O salmista afirmou: “quem há de permanecer no Seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração …” (Sl 24:3-4). Davi arrependeu-se, confessando os seus pecados e dizendo: “lava-me completamente … purifica-me do meu pecado … purifica-me e ficarei limpo … lava-me e ficarei mais alvo que a neve …” (Sl 51:2-3). O Senhor Jesus, no cenáculo em Jerusalém, dirigiu-se ao discípulo Simão Pedro dizendo: “se Eu não te lavar, não tens parte comigo” (Jo 13:8). Tudo isto nos fala da necessidade de purificação. Mãos e pés devem ser lavados antes de qualquer ato de adoração. No passado, a impureza desqualificava o sacerdote de ministrar perante o Senhor e, hoje em dia, Deus ainda deseja que os Seus adoradores sejam puros. É algo grave celebrar a Ceia, ou participar de qualquer atividade espiritual, tendo pecado não confessado, e por isso Paulo nos exorta: “… examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice” (I Co 11: 29).

O chefe da sinagoga (9:18-26)

Depois Mateus nos leva a um lugar em Cafarnaum, onde o Senhor Jesus recebeu a adoração de um chefe da sinagoga. “Enquanto estas cousas lhes dizia, eis que um chefe, aproximando-se, o adorou …” (9:18). Marcos e Lucas destacam a atitude do adorador Jairo, que prostrou-se a seus pés em adoração (Mc 5:22; Lc 8:41).

O leproso do cap. 8 queria ficar limpo, e Jairo queria que a sua filha fosse curada. Cada petição era diferente. As suas posições sociais também eram diferentes e realmente completamente opostas. De um lado vemos o desprezado leproso e, do outro, o respeitado chefe da sinagoga, mas se há algo notável e admirável é o fato de que ambos ocuparam a mesma posição e demonstraram a mesma atitude reverente perante o Senhor: prostraram-se aos Seus pés em adoração verdadeira. Você tem este privilégio imensurável hoje em dia, meu irmão e minha irmã. “Ouve … esquece o teu povo e a casa de teu pai. Então o rei cobiçará a tua formosura; pois ele é o teu Senhor; inclina-te perante ele …” (Sl 45:10-11).

Maria de Betânia sabia muito bem que o melhor lugar para aprender sobre a vontade do Senhor Jesus e apreciar as Suas perfeições e belezas era aos Seus pés, onde a vemos, assentada. Que nós também conheçamos e nunca esqueçamos desta verdade.

É interessante observar o que aconteceu. “Jesus, levantando-se, o seguia” (9:19). Veja o v. 9, onde Mateus começa a seguir o Senhor Jesus, que lhe ordenara: “segue-me!”. O Salvador que convidou outros para serem Seus seguidores, dispunha-se a seguir outros se isso fosse necessário. O chefe trouxe o Senhor até à sua casa e o Senhor Jesus começou a resolver o problema tanto do adorador como da mulher enferma (v. 20).

Em primeiro lugar, o sofredor procurou o Senhor, mas depois foi o Senhor quem procurou a enferma. A pobre e aflita mulher estendeu a mão (v. 20) e depois o Senhor estendeu a Sua mão e tocou na criança (v. 25). O Senhor queria que a cura da mulher fosse conhecida e que a ressurreição da menina fosse particular e secreta. Tudo porém começou quando o chefe da sinagoga chegou à presença do Senhor Jesus, prostrando-se e adorando. Seria bom tirar uma outra lição prática destes acontecimentos. Quando nós estivermos ocupados no privilégio mais sublime da vida cristã, teremos condições de ajudar as pessoas ao nosso redor, quer sejam amigos, parentes, vizinhos ou colegas.

Os discípulos (14:22-33)

Para terminar o primeiro grupo de quatro adoradores, o cenário muda um pouco e o lugar de adoração agora é um barco. O Senhor havia instruído os Seus discípulos a pegarem o barco e irem na Sua frente para a cidade de Betsaida. Depois, Ele subiu ao monte a fim de orar sozinho (Mt 14:23). De onde se encontrava, Ele podia ver o lago e observar que Seus discípulos estavam se fatigando ao remar, porque o vento era contrário. O trecho afirma que Ele, “pela quarta vigília da noite dirigiu-se a eles, caminhando sobre o lago” (Mc 6:48). Isto significa que várias horas se passaram, pois os discípulos saíram com o barco no início da noite. Durante várias horas Ele os viu lutando e enfrentando um forte vento contrário e não foi ao seu socorro. Todavia Ele sabia de tudo o que estava acontecendo e, sem dúvida, antes de ajudá-los, permitiu que eles provassem aquela situação angustiante. Finalmente “cessou o vento e os que estavam no barco adoraram, dizendo: “Verdadeiramente és Filho de Deus!” (Mt 14:33).

Uma contemplação da majestade do Senhor sempre produzirá, em nossos corações, admiração e um desejo de contemplar a Cristo mais e mais. Ele está muito acima de nós em grandeza, e portanto deve ser adorado. “Grande é o Senhor e mui digno de ser louvado” (Sl 49:11). “O Senhor é o Deus supremo e o grande Rei … vinde, adoremos e prostremo-nos” (Sl 95:3, 6).

Na primeira manifestação de adoração dos discípulos, eles chegaram às seguintes conclusões inegáveis:
  • Ele tem perfeito conhecimento das nossas dificuldades e dos nossos problemas;
  • Ele está sempre intercedendo por nós. Se for necessário, Ele responde imediatamente ao nosso clamor;
  • Ele está em perfeito controle de todas as circunstâncias da nossa vida;
  • Ele é Deus. Ele é digno de receber toda a honra e glória. Ele é digno de ser adorado!
Foi com alegria e com ações de graças que aqueles discípulos, cheios de admiração, exclamaram: “verdadeiramente és Filho de Deus”.

Assim termina o primeiro grupo de verdadeiros adoradores que encontramos no Evangelho segundo Mateus, no qual o evangelista nos mostra:
  • A preparação dos magos — cap. 2;
  • A purificação do leproso — cap. 8;
  • A abnegação do chefe da sinagoga — cap. 9;
  • A admiração dos discípulos — cap. 14.
“És digno, pois que em Ti brilhou A glória que nos revelou As santas perfeições de Deus, Quais nem se viram lá nos céus. Digno és, digníssimo Senhor! Rei Santo! Cristo! Salvador! Dos altos céus admiração, A quem louvores todos dão.“ (Hinos e Cânticos 547)

Ó, que possamos ver em nossos dias adoradores como estes. O Senhor deseja a nossa adoração, e mais do que isto, Ele é digno de ser adorado. Sem dúvida, é isto o que faremos, se O contemplarmos pela fé!

A partir do cap. 15 vemos, pela primeira vez neste Evangelho, a adoração de mulheres:
  • a mulher Cananéia — cap. 15;
  • a mãe de Tiago e João — cap. 20;
  • as duas Marias — cap. 28.
Mateus termina o seu Evangelho com os onze discípulos no monte que o Senhor Jesus havia designado, adorando-O e recebendo dEle a grande comissão. Consideremos estas últimas manifestações de adoração, que começam no cap. 15.

A mulher cananéia (15:21-28)

O trecho começa com estas palavras: “Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidom” (Mt 15:21). Ele estava retirando-se daquele ambiente de hostilidade e incredulidade que é descrito nos primeiros vinte versículos deste capítulo. Na narrativa do evangelista Marcos, descobrimos que o Senhor Jesus, “… tendo entrado numa casa, queria que ninguém o soubesse, no entanto não pôde ocultar-se” (Mc 7: 24).

É interessante meditar nas coisas que o Senhor Jesus não podia fazer. Ele não podia:
  • Entrar publicamente “em qualquer cidade, mas permanecia fora” (Mc 1: 45);
  • Fazer em Nazaré nenhum milagre, “senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos” (Mc 6:5-6);
  • Ocultar-se (Mc 7:24).
O Salvador que não podia entrar em qualquer cidade, ou fazer nenhum milagre, ou ocultar-se, não permitiu, por causa disso, que os Seus planos fossem frustrados, pois, como Ele disse, “o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10:45).

Esta mulher não pertencia ao povo de Deus. Era uma mulher cananéia, mas mesmo assim sentiu no seu coração o desejo de Lhe apresentar um pedido (v. 22). Apesar da oposição dos discípulos (v. 23) e do aparente desinteresse do Senhor Jesus (v. 24), ela não desistiu, mas simplesmente O adorou. Apesar das palavras do Senhor Jesus, difíceis de entender (v. 26), ela tinha esperança de que o Senhor Jesus iria dar valor à sua adoração e compreender os seus motivos. Ela respondeu ao Senhor Jesus com muita inteligência e sabedoria, e o Senhor Jesus viu algo que não tinha visto, ou contemplado, nem mesmo em Israel, e disse: “Ó mulher, grande é a tua fé!” O que torna esta exclamação do Senhor Jesus tão impressionante é o fato de que Ele tinha procurado fé como esta por muito tempo e ainda não a havia encontrado, na Sua própria Terra. Que eu saiba, Ele nunca elogiou os Seus discípulos pela sua fé e confiança. Pelo contrário, várias vezes, Ele os repreendeu por causa da sua incredulidade. Veja, por exemplo, as Suas palavras em Mateus cap. 6:

“… se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?” (Mt 6:30). Ele acrescentou: “Por que sois tímidos, homens de pequena fé?” ao acalmar a tempestade e repreender os ventos e o mar.

Ele quer que nós saibamos confiar nEle para suprir todas as nossas necessidades, até nas dificuldades e problemas das nossas vidas. Esta mulher cananéia nos mostra algo que é essencial, se quisermos ser Seus adoradores. Teremos que contemplá-lO pela fé, ou nas Suas palavras: “Bem aventurados os que não viram e creram …” (Jo 20:29).

Tomé, o incrédulo, finalmente reconheceu a plena divindade de Jesus Cristo dizendo: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20:28). Esta frase marca o ponto culminante do seu progresso na vida cristã e nós, sem dúvida, iremos seguir o seu exemplo, apresentando a nossa adoração e confessando individualmente: “Senhor meu e Deus meu!“

Irmãos, se desejarmos ser verdadeiros adoradores não iremos agir na dependência da carne ou nos nossos próprios esforços, pois “… os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (Jo 4: 23). Nada de egoísmo ou auto-confiança. Com fé inabalável iremos nos ocupar na mais sublime ocupação dos filhos de Deus na Terra, exclamando: “Senhor meu e Deus meu!“

A mãe de Tiago e João (20:20-23)

“Então se chegou a Ele a mulher de Zebedeu com seus filhos e, adorando-O, pediu-lhe um favor …” . É difícil entender a preocupação de Salomé, Tiago e João, cujo desejo era garantir uma posição de liderança no reino futuro, justamente quando o Senhor Jesus estava se preparando para enfrentar os Seus sofrimentos e a Sua morte. Ele havia acabado de falar sobre a Sua crucificação, quando lhe apresentaram a sua petição: “… manda que, no Teu reino, estes meus dois filhos se assentem um a Tua direita e o outro a Tua esquerda …” (v. 21).

Em vez de oferecer-lhes uma coroa, Ele lhes oferece um cálice, representando os Seus sofrimentos. Dois símbolos são mencionados nestes versículos — um cálice e um batismo. Ele queria saber se eles eram capazes de beber o cálice que Ele beberia, ou ser batizados com o batismo com que Ele seria batizado.

A seguir, o Senhor aplicou os símbolos de sofrimento aos dois discípulos. Eles teriam, sim, o privilégio de sofrer até a morte. Tiago seria o primeiro apóstolo a ser martirizado, e João foi o último apóstolo a morrer. O Senhor explicou que quem procurasse preeminência entre eles deveria ser servo, e quem desejasse grandeza deveria ser escravo.

É interessante ver, neste capítulo, o contraste impressionante entre os dois irmãos (vs. 20-25) e os dois cegos (vs. 29-34). Os dois irmãos eram privilegiados, pois podiam acompanhar o Senhor Jesus, como discípulos, enquanto que os dois cegos estavam isolados da comunidade e não tinham condições de trabalhar. Porém, os dois discípulos foram repreendidos, juntamente com a sua mãe, enquanto que os dois cegos foram abençoados.

Irmãos, que tenhamos sempre uma atitude humilde e reverente na presença dAquele que veio para sofrer e servir e não para ser servido. Ele quer que sejamos sinceros na Sua presença, quando estivermos apresentando a nossa adoração “… porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (I Sm 16:7).

As duas Marias (28:1-10)

“E eis que Jesus veio ao encontro delas e disse: Salve! E elas aproximando-se abraçaram-lhe os pés e o adoraram” (28:9).

Estas mulheres devotas, junto com a esposa de Zebedeu, estavam presentes durante a crucificação, “observando de longe” (27:55). Elas faziam parte de um grupo que havia seguido o Senhor, desde a Galiléia, “para o servir”. Depois do sepultamento do Senhor Jesus, por José de Arimatéia, “achavam-se ali sentadas em frente da sepultura” (27:61). “Ao entrar o primeiro dia da semana … foram ver o sepulcro … houve um terremoto” e um anjo do Senhor desceu e trouxe-lhes as notícias mais alegres que elas jamais haviam recebido: “Não temais; porque sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui: ressuscitou, como havia dito. Vinde ver onde Ele jazia” (28:1, 6).

Os últimos dias haviam sido muito difíceis para aquelas mulheres. A prisão, o julgamento, a humilhação e finalmente o terrível espetáculo da crucificação do amado Salvador, deixaram-nas desapontadas e deprimidas. No primeiro dia da semana elas haviam voltado com aromas para embalsamá-lO, e já estavam prontas para oferecer adoração verdadeira (a que é oferecida com mãos cheias). Deus havia instruído o Seu povo no passado dizendo: “ninguém apareça de mãos vazias perante Mim” (Êx 23:16).

“E eis que Jesus veio ao encontro delas…” Elas haviam seguido, em espírito, os passos da esposa em Cantares de Salomão: “De noite, no meu leito, busquei o amado de minha alma, busquei-o e não o achei. Levantar-me-ei pois e rodearei a cidade, pelas ruas e pelas praças; buscarei o amado da minha alma. Busquei-o e não o achei. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade. Então lhes perguntei: Vistes o amado da minha alma? Mal os deixei, encontrei logo o amado da minha alma. Agarrei-me a ele e não o deixei ir embora …” (Ct. 3:1-4).

É comovente a informação de que “… elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés e O adoraram” (v. 9). Ele apareceu num jardim, numa estrada, num cenáculo, a beira-mar e a mais de quinhentos, em outro local. Ele comeu com eles, conversou com eles e soprou sobre eles, dando provas cabais da Sua ressurreição. Como é confortador saber, sem sombra de dúvida, que em breve veremos o nosso Redentor vivo, e contemplaremos as perfeições e belezas deste Salvador que “nos amou e por nós quis morrer.” Que tenhamos a mesma alegria daquelas mulheres espirituais cujo amor impressionou o Senhor. Se desejarmos ser adoradores verdadeiros, a verdadeira alegria será um ingrediente essencial, proporcionando-nos uma satisfação imensa na bendita pessoa de Cristo. Será que nós sabemos dizer individualmente: “considero tudo como perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo…”? (Fp. 3:3).

Os discípulos (28:16-20)

“Seguiram os onze discípulos para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes designara. E quando o viram, O adoraram …” (vs. 16-17).

Antes da Sua morte, o Senhor Jesus se dirigiu aos Seus discípulos dizendo: “… depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia.” (Mt 26:32). E no primeiro dia da semana, o anjo dirigindo-se às mulheres disse: “Ide, pois, depressa, e dizei aos seus discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e vai adiante de vós para a Galiléia; ali O vereis. É como vos digo!” (Mt 28:7).

Depois eles se encontraram com o próprio Senhor Jesus que lhes disse: “Não temais. Ide avisar a meus irmãos que se dirijam à Galiléia, e lá me verão.” (Mt 28:10).

A repetição desta mensagem nos ensina que algo de tremenda importância estava para acontecer. E eu queria que vocês notassem o que aconteceu:

“Seguiram os onze discípulos para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes designara. E, quando o viram, O adoraram …” (vs. 16-17). A adoração dos discípulos está intimamente ligada à sua obediência. Logo depois desta última manifestação de adoração, veio a grande comissão. “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século.” (vs. 18-20).

Analisando a comissão do Senhor Jesus, descobrimos que a vontade do Senhor era perfeitamente clara:
  • Ide;
  • Fazei discípulos;
  • Batizando-os;
  • Ensinando-os.
Seria bom acompanhar os seus passos. A primeira etapa seria a ordem de ir e, sem dúvida, esta ida iria incluir todos na obra de evangelização, isto é, na pregação do Evangelho (At 2:22-36; 38-40). A segunda etapa mostra que o discipulado começou logo após a conversão. Eles perguntaram: “que faremos irmãos?” (v. 37). Eles aceitaram a palavra (v. 41) e estavam dispostos a colocar em prática a palavra de Deus. Que haja esta disposição na vida de cada um de nós. Discípulos verdadeiros terão prazer em obedecer porque isto faz parte do discipulado. Veja a terceira etapa no mesmo trecho — “… os que lhe aceitaram a palavra foram batizados.” (At 2:41). Em todas as manifestações de batismo no livro de Atos, o batismo sempre segue a salvação. A última etapa da grande comissão do Senhor se encontra no mesmo versículo: “…e perseveravam na doutrina …“

Eles se ajuntaram ao grupo dos irmãos, separados dos incrédulos, pois “…dos restantes, ninguém ousava ajuntar-se a eles; porém o povo lhes tributava grande admiração” (5:13).

Até quando esta ordem do Senhor Jesus tem que ser obedecida? “Até a consumação do século …” (Mt 28:20). O apóstolo Paulo foi caracterizado por firmeza de convicção e obediência à Palavra de Deus. Em Atos 18 encontramos Paulo em Corinto iniciando o seu trabalho naquela cidade e, na dependência de Deus, ele explica como ele começou: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” (I Co 2:1-2).

Ele pregava fielmente na casa de Tício Justo e também na sinagoga, e os resultados animaram este servo pois: “muitos dos coríntios ouvindo, creram e eram batizados” (At 18:8). Mas Paulo sabia que ainda tinha que fazer a parte mais difícil. Então “permaneceu um ano e seis meses ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18:11), obedecendo assim a comissão do seu amado Salvador (Mt 28:18-20). Como o Senhor havia prometido estar com os seus, até a consumação do século, Ele fez a mesma promessa a Paulo dizendo: “Eu estou contigo e ninguém ousará fazer-te mal …” (At 18:10).

Esta ordem foi fielmente seguida nos tempos apostólicos, produzindo igrejas locais fiéis e obedientes à vontade do Senhor. Naqueles tempos, no princípio, só havia um ajuntamento de irmãos em cada localidade. Havia somente “igrejas de Deus”, reunidas ao nome do Senhor Jesus Cristo, de acordo com Mt 18:20 e perseverando fielmente na “doutrina, na comunhão, no partir do pão e nas orações.“(At 2:42).

O Evangelho de Mateus começa com um grupo de magos, gentios, um pequeno remanescente ocupado com as perfeições do recém-nascido, ofertando-Lhe ouro, incenso e mirra (Mt 2:2), e termina com um outro grupo contemplando um Salvador vivo, poderoso e glorificado, abençoando os Seus discípulos e entregando-lhes a grande comissão, na sua maravilhosa amplitude:

“Toda autoridade … todas as nações, todas as cousas … todos os dias …”.

No último exemplo de adoração, neste Evangelho, vemos a obediência dos onze discípulos. Eles estavam esperando no lugar que havia sido designado, na Galiléia. O lugar era extremamente importante. A nação teve o tabernáculo e mais tarde o Templo. Foram construídos por homens, isto é, eram “Santuário Terrestre” (Hb 9:1). “Santuário feito por mãos” (Hb 9:24); tinham um significado simbólico (Hb 9:23) e eram imperfeitos e ineficazes pois “ainda o caminho do Santo Lugar não se manifestou, enquanto o primeiro tabernáculo continua erguido.” (Hb 9:8). Eram magníficos em aparência, como Davi havia indicado “… a casa que se há de edificar para o Senhor deve ser sobremodo magnificente para nome e glória em todas as terras.” (I Cr 22:5). Moisés havia indicado: “haverá um lugar, que escolherá o Senhor vosso Deus, para ali fazer habitar o seu nome; a esse lugar fareis chegar tudo.” (Dt 12:11).

Depois da construção do tabernáculo, houve uma manifestação da presença de Deus “… Moisés acabou a obra. Então a nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do Senhor encheu o tabernáculo.“(Êx 40:34). Quando Salomão convidou os anciãos de Israel para fazerem subir a arca da aliança do Senhor da cidade de Davi para o Templo: “… os sacerdotes não puderam permanecer ali para ministrar por causa da nuvem, porque a glória do Senhor enchera a casa do Senhor …” (I Re 8:11) Tudo havia sido feito “de acordo com o modelo” e houve uma demonstração visível da aprovação de Deus. Mas “o Deus que fez o mundo e tudo que nele existe não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17:24). O tabernáculo feito por Moisés não existe mais; o Templo que Salomão construiu em Jerusalém, foi destruído, há muitos séculos. Como pode o único Deus vivo e verdadeiro habitar entre os irmãos, hoje? Em que lugar o Altíssimo habitará? A Palavra de Deus indica que o local não é importante. Em qualquer lugar onde estiverem dois ou três reunidos em Seu nome, ai Ele estará.

Quando a mulher samaritana conversou com o Senhor, ela perguntou a respeito do lugar de adoração. Ele respondeu: “Mulher, podes crer-me, que a hora vem, quando nem neste monte,” que seria o lugar dos samaritanos, “nem em Jerusalém adorareis o Pai” (v. 21).

O local não teria importância. O que seria muito mais importante seria a condição espiritual. Os adoradores que terão condições, “adorarão o Pai em espírito e em verdade.” O lugar geográfico não terá importância para estes adoradores, pois Deus não habita mais “em santuários feitos por mãos humanas” (At 17:24). “Veio Cristo … mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos …” (Hb 9:11). O lugar de adoração agora é “maior e mais perfeito”, apropriado pela fé. “Possuímos tal Sumo Sacerdote, que se assentou à destra do trono da majestade nos céus, como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem.” (Hb 8:2).

Onde Ele está hoje? A promessa das Escrituras tem sido um forte consolo para o povo de Deus através dos séculos, pois “… além do véu … Jesus … entrou por nós, tendo-se tornado sumo sacerdote para sempre …” (Hb 6:19-20). “Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós diante de Deus” (Hb 9:24).

Um grupo de cristãos, reunidos em nome do Senhor Jesus Cristo, não precisa de proteção de nenhuma organização, nem de elos denominacionais para os unir, nem de ordens de uma cúpula humana para poder funcionar. Tendo o próprio Senhor no seu meio, eles têm tudo o que precisam e estão em liberdade para funcionar de acordo com a vontade do Senhor.

Então qual deve ser a nossa atitude, como verdadeiros adoradores? “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus …
  • aproximemo-nos com sincero coração,
  • em plena certeza de fé,
  • tendo os corações purificados de má consciência e lavado o corpo com água pura.” (Hb 10:22).
O que nos anima é a Sua presença, assim como animava os Seus seguidores durante o Seu ministério público. Eles tiveram o Senhor Jesus com eles durante três anos e meio. Em todas as circunstâncias o Senhor esteve ao seu alcance, sempre disposto a ajudá-los. Nas preocupações, nos problemas e dificuldades, eles podiam clamar ao Senhor. Era um privilégio imensurável. E as primeiras igrejas se reuniam em lugares simples e humildes. Havia irmãos reunidos na casa de Áquila e Priscila, em Roma (Rm 16:3-5; I Co 16:19), na casa de Ninfa, em Laodicéia, na casa de Arquipo (Fm v. 2) e na casa da Lídia, em Filipos (At 16:40). O importante é lembrar do aviso do apóstolo Paulo: “tudo, porém, seja feito com decência e ordem …” (I Co 14:40).

A preparação necessária

No passado, Deus falou com Moisés do meio da sarça ardente, e queria que ele falasse a Faraó dizendo: “Deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto, a fim de que sacrifiquemos ao Senhor nosso Deus.” (Êx 3:18). Assim, Moisés e Arão foram e disseram a Faraó: “assim diz o Senhor Deus de Israel; deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto … para que ofereçamos sacrifícios ao Senhor nosso Deus …” (Êx 3:18; 5:1, 3). Antes de apresentarem adoração a Deus era essencial
  • serem protegidos por Deus, pelo sangue do cordeiro,
  • serem libertados da escravidão, pela salvação de Deus,
  • serem separados do Egito, de uma vez para sempre.
Somente então “entoou Moisés e os filhos de Israel, este cântico ao Senhor, e disseram: Cantarei ao Senhor …” (Êx 15:1). Queremos ressaltar que é necessário haver uma avaliação antes de apresentarmos a nossa adoração. A adoração e o serviço de uma igreja local estarão comprometidos se houver pecado no seu meio. Como era necessário para o sacerdote fazer uma lavagem cerimonial, antes de entrar no santuário, assim também é essencial que nós estejamos em condições para adorar em espírito e em verdade. Sabemos que Deus quer que sejamos adoradores, e pela proteção do sangue que Ele derramou e pela direção do Espírito Santo e pela orientação de Deus, através da Sua Palavra, temos tudo de que precisamos para entrar na presença de Deus.

Nós regozijamos por estarmos protegidos pelo sangue de Cristo, “sabendo que não foi mediante cousas corruptíveis como prata ou ouro que fostes resgatados … mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (I Pe 1:18-19). Reconhecemos que fomos separados, de uma vez para sempre, do mundo e cada um de nós pode e deve afirmar: “… longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6:14). A nossa perspectiva agora, já que somos protegidos e separados do mundo e libertados do pecado, deve ser a mesma do apóstolo Paulo: “Que diremos? Permaneceremos no pecado para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum. Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6:1-4).

Na carta do apóstolo Paulo aos Coríntios, há um trecho que nos orienta em relação à nossa adoração. No capítulo 11, vemos algumas instruções em relação à Ceia do Senhor. Logo em seguida, no capítulo 12, temos a distribuição dos dons espirituais e no capítulo 13, vemos a necessidade de um amor verdadeiro. Isto nos leva ao capítulo 14 que trata da ordem nas reuniões da igreja. Paulo enfatiza que o Espírito Santo guia em tudo. Não há nada de organização humana aqui. Infelizmente, apesar dos cristãos professos dizerem que creem no sacerdócio de todos os crentes, muitas igrejas locais estabeleceram um sacerdócio todo seu. Temos visto grupos de homens que são escolhidos para o serviço divino e um ritualismo impressionante que agrada aos homens. Deus ainda chama o Seu povo para separar-se de símbolos e tipos e para se reunir simplesmente no nome do Senhor Jesus, em quem encontramos toda a suficiência.

Nas igrejas locais, as reuniões e o serviço serão dirigidos pelo Espírito Santo; e os dons espirituais, distribuídos pelo próprio Senhor, serão desenvolvidos conforme a variedade dos mesmos, em comunhão fraternal e na dependência e liberdade de Cristo. Quando a igreja se reúne em torno da mesa do Senhor para O louvar e adorar, a adoração subirá até ao Santuário Celestial, que é o mais alto privilégio do sacerdócio da igreja. Nada de organização humana irá complicar a simplicidade desta atividade sublime, pois: “onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade” (II Co 3:17).

Este Salvador é digno de ser adorado. Ele quer que sejamos adoradores verdadeiros. Vamos nos ocupar com este privilégio tão sublime da vida cristã, reconhecendo a Sua supremacia: “toda autoridade”; obedecendo, em tudo, os Seus mandamentos: “todas as nações … todas as coisas”. Façamos isto, encorajados pela certeza da Sua presença, “todos os dias até a consumação do século.” Que assim seja!

Andrew Renshaw

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