Onde celebrar a Ceia?

O texto abaixo é a íntegra do folheto de mesmo título publicado pela eSd




É bíblico celebrar a Ceia do Senhor fora do contexto duma igreja local?

Esta questão provoca muita polêmica. Diversas ideias são apresentadas a favor da prática de celebrar a Ceia independentemente duma igreja local, seja durante um acampamento, seja viajando em alto mar, ou em qualquer circunstância onde cristãos se encontram longe duma igreja. Até nomes de irmãos bem conhecidos e respeitados são citados como havendo praticado isto. Mas será que este fato prova que tal costume é conforme a vontade de Deus? Creio que não. Lemos em Isaías 8:20: “À Lei e ao Testemunho! Se eles não falarem segundo esta Palavra, nunca verão a alva”. A Palavra de Deus é a última corte de apelação, e não a experiência de outros irmãos.

Referências antes de Pentecostes

Alguns citam a instituição da Ceia do Senhor, registrada nos Evangelhos, para defender a ideia de que a Ceia não precisa ser restrita à igreja local, pois nenhuma igreja existia quando o Senhor Jesus celebrou o primeiro “Partir do Pão” com Seus discípulos. Foi somente a partir do dia de Pentecostes (Atos 2), quando o Espírito Santo desceu, que a primeira igreja veio a existir. Porém, nos Evangelhos o Senhor estava mostrando aos apóstolos aquilo que Ele quis que Seu povo fizesse durante esta presente era da Igreja. Afirma–se em Efésios 2:20 que estamos sendo edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina. Foi por esta razão que o Senhor revelou Seu desejo aos apóstolos.

Em Lucas 22:19 o Senhor disse: “Fazei isto em memória de Mim”. Naquela altura os discípulos não precisavam do Partir do Pão para lembrarem–se do Senhor, porque Ele ainda estava com eles fisicamente. Ele foi visto por eles durante quarenta dias entre Sua ressurreição e Sua ascensão à glória, mas não há qualquer relato duma celebração da Ceia do Senhor durante este período de várias semanas. Não há qualquer menção do Partir do Pão nas Escrituras desde a sua instituição até Atos 2:42. Parece que os discípulos nem entenderam o ensino do Senhor sobre este assunto (veja Lucas 24:21) até depois do dia de Pentecostes. Portanto, a instituição da Ceia, na véspera da crucificação, não nos autoriza a celebrar o Partir do Pão em qualquer lugar e a qualquer tempo, à nosso bel-prazer.

Referências depois de Pentecostes

As quatro vezes que lemos do Partir do Pão, a partir de Atos 2, demonstram claramente que é sempre ato da igreja local: Atos 2:42; Atos 20:7; I Coríntios 10:16–22 e I Coríntios 11:23–34.

Em Atos 2 temos a formação da Igreja. Em Atos 2:42 aprendemos que a comunhão desta primeira igreja foi estabelecida pela doutrina dos Apóstolos, manifestada pelo Partir do Pão, e mantida pelas orações. Atos 2:46 tem sido citado por aqueles que defendem a celebração da Ceia fora da igreja local, mas o “partir do pão” mencionado nesse versículo nada tem a ver com a Ceia do Senhor. Foi simplesmente uma refeição comum, como em Lucas 24:30.

A primeira epístola aos Coríntios trata especialmente das verdades concernentes à igreja local. Esta é a única epístola em o Novo Testamento que faz menção da Ceia do Senhor, e este fato prova mais do que nunca que o Partir do Pão é ato da igreja de Deus.

Em Atos 20:7 encontramos mais um trecho que fala do Partir do Pão. Alguns já tentaram provar que não havia igreja em Troas (ou Trôade), contudo uma leitura cuidadosa desta porção da Palavra de Deus demonstrará que havia, sim. Lemos de discípulos nos vs. 4 e 7. Porém, a narrativa deixa bem claro que havia mais discípulos no v. 7 do que no v. 4, pois o v. 7 inclui discípulos de Troas também. Em II Coríntios 2:12 o apóstolo diz que havia pregado o evangelho em Troas e que abriu–se–lhe “uma porta no Senhor”. Segundo a cronologia do livro dos Atos, isto aconteceu antes de sua visita a Troas em Atos 20. Em Atos 16:8 o encontramos em Troas, e dali ele foi para a Macedônia, fato este que está de acordo com II Coríntios 2:12, mas não com Atos 20, pois partindo de Troas nesta segundo ocasião, ele foi a Assos. Nessa primeira visita Paulo pregou o evangelho, e será que ele deixou os convertidos sem instrução? De jeito nenhum, pois, como verdadeiro servo de Cristo, e obedecendo o mandamento do Senhor em Mateus 28:20, ele sempre ensinou os crentes novos a guardarem todas as coisas que o Senhor tinha mandado, e assim igrejas locais foram estabelecidas, reunidas em nome do Senhor Jesus Cristo.

Em Atos 20 Paulo e seus companheiros ficaram sete dias em Troas, e no primeiro dia da semana se reuniram com os discípulos daquele lugar para partir o pão. Portanto há bastante evidência da existência duma igreja em Troas, e assim, depois da instituição da Ceia do Senhor, não encontramos na Bíblia qualquer exemplo da celebração dela em qualquer outro lugar a não ser uma igreja local.

Algumas ilustrações do Velho Testamento

Escrituras tais como Romanos 15:4, I Coríntios 10:11 e II Timóteo 3:16–17 outorgam–nos a autoridade para considerar alguns exemplos no Velho Testamento que confirmam esta verdade. Não é que tiramos esta doutrina dos tipos do Velho Testamento, mas sim, que havendo aprendido a doutrina no Novo Testamento, podemos procurar ilustrações no Velho Testamento. No Novo Testamento temos a doutrina, porém no Velho Testamento vemos como aplicar a doutrina conforme a intenção de Deus.

Números cap. 9 é citado para mostrar que um Israelita que estivesse de viagem tinha que celebrar a Páscoa no tempo determinado, usando isso para ensinar que seria bíblico partir o pão quando visitando um lugar onde não há igreja. Esta passagem das Escrituras deve ser lida com cuidado, pois a ideia acima mencionada não é de acordo com as Escrituras. Em Êxodo 12 temos a instituição da Páscoa, em Deuteronômio capítulos 12 e 16 temos o lugar onde a Páscoa devia ser celebrada, pois vez após vez encontramos a expressão: “Haverá um lugar que escolherá o Senhor para ali fazer habitar o Seu nome”.

Em Êxodo 12 e Números 9, e muitos outros lugares na Bíblia, lemos que o tempo determinado para a Páscoa era o dia catorze do primeiro mês. Em Números 9:7, alguns estavam imundos e portanto não puderam celebrar a festa. Desejosos de participar, foram ter com Moisés, e ele levou o problema ao Senhor. No v. 10, Deus dá instruções a respeito disso. Na resposta divina, outra dificuldade é antecipada — a do homem que “se achava em jornada”, e convém notar as instruções no v. 11. Deus indicou o dia catorze do segundo mês, não do primeiro, dando assim bastante tempo para a purificação do imundo, e o regresso, daquele que viajara, ao lugar escolhido por Deus. Veja II Crônicas 30:1–25 para ver um exemplo disso. No NT a Ceia não foi celebrada em qualquer outro lugar, nem na cadeia, nem durante uma viagem, mas somente no lugar escolhido pelo Senhor “para ali fazer habitar o Seu nome”, isto é, na igreja local como em Atos 20.

Há muitas lições importantes que podemos aprender em I Reis 12:25–33, onde o Espírito Santo chama nossa atenção para o pecado de Jeroboão. O pecado dele é mencionado pelo menos 23 vezes nos livros dos Reis, onde lemos dos “pecados de Jeroboão … que fizera pecar a Israel”. Qual foi o pecado dele?

1) Estabeleceu um lugar errado (v. 29);

2) Determinou um tempo errado (v. 33);

3) Sacrificou sobre um altar errado (v. 33);

4) Ofereceu sacrifícios errados (v. 32);

5) Ordenou os sacerdotes errados (v. 31).

Sem dúvida, estas coisas não são registradas em vão, mas sim, para nossa instrução (Romanos 15:4). E realmente as condições em torno de nós hoje em dia são bem parecidas com os dias de Jeroboão. Porém, como o povo de Deus, vamos desejar sempre ser guiados pelo Espírito Santo e pela Palavra de Deus, e não pelas tradições dos homens.

Hoje precisamos muito daquela palavra de I Tessalonicenses 5:21: “Examinai tudo. Retende o bem”, e outra vez, lembremo–nos dos homens de Beréia em Atos 17:11: “Porque de bom grado receberam a Palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”.

J. B. — adaptado e traduzido por T. J. B.

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