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Teu Servo Ouve - Parte II Imprimir E-mail
Autoria / Fonte: Adriano Anthero   
Qua, 11 de Março de 2009 22:24

Depois de pensar no ambiente, vejamos agora em que ocasião Samuel disse “Teu servo ouve”.

A ocasião (em que foram ditas)

Depois de pensar no ambiente, vejamos agora em que ocasião Samuel disse “Teu servo ouve”.

Há ocasiões que são importantes na vida de uma pessoa. Por exemplo, a ocasião do seu nascimento é uma data que, normalmente, é lembrada com alegria e comemoração. Faraó e Herodes são exemplos disso. Ambos deram um banquete por ocasião do seu aniversário (veja Gn 40:20; Mc 6:21).

Samuel não é uma exceção. Muitos fatos se destacam como sendo importantes na sua vida. Lemos, por exemplo, do momento importante quando, logo após ter sido desmamado, ele foi entregue ao Senhor (I Sm 1:24-28). Ainda outras ocasiões como a intercessão pelo povo (7:5-12), a unção de Saul como rei (10:1), a unção de Davi como rei (16:13), etc., foram importantes. Mas, talvez, uma das ocasiões que mais marcou sua vida foi quando, pela primeira vez, ele ouviu a voz do Senhor. Deve ter sido muito marcante para ele ouvir a voz do próprio Deus. E foi exatamente nesta primeira experiência com Deus que Samuel disse as palavras “teu servo ouve”.

Não conhecia o Senhor e a Sua Palavra

Moisés, Samuel e Timóteo são exemplos claros de crianças que foram criadas “na doutrina e admoestação do Senhor” (Ef 6:4). É interessante notar que mesmo antes de nascer, Samuel já era alvo de oração (I Sm 1:27). Mas o menino também nos ensina outra lição importante. Aprendemos com ele que ser educado como um servo de Deus não significa ser um servo de Deus. É necessário ter tido a primeira experiência com o Senhor. É importante salientar que Samuel servia ao Senhor (I Sm 2:11), ministrava “vestido com um éfode de linho” (2:18), crescia “diante do Senhor” (2:21), porém,Samuel ainda não conhecia ao Senhor, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor” (3:7). Isso significa que Samuel servia formalmente no Tabernáculo, porém nunca antes havia tido uma real experiência com o Senhor a Quem servia.

Samuel não estava acostumado a ouvir a voz de Deus, por isso ele correu três vezes a Eli, pensando que este era quem o chamava. O fato de Eli ter ensinado Samuel como deveria responder ao Senhor é mais uma prova de que aquela era a primeira experiência dele.

Outra coisa importante é que Eli ensinou assim: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”. Samuel, porém, respondeu assim: “Fala, porque o teu servo ouve”. Na sua resposta, Samuel omitiu o nome do Senhor. Ele não fez isso porque era irreverente quanto ao nome da Pessoa que falava com ele, mas sim, porque temia pronunciar esse Nome. Ele não sabia, exatamente, com Quem estava falando. Ele não conhecia o Senhor e a Sua Palavra (voz).

“Naqueles dias, a Palavra do Senhor era mui rara, as visões não eram freqüentes” (I Sm 3:1; ARA). Desta maneira começa o capítulo que narra a primeira experiência de Samuel com o Senhor. Parece até uma contradição. No primeiro versículo desse capítulo Deus se mantêm em silêncio, mas no último versículo (v.21), Ele se manifesta e fala freqüentemente. A razão desta mudança é que no meio do capítulo ouvimos as palavras que soam como uma oração, um pedido ao Senhor: “Fala, porque teu servo ouve” (v. 10)!

Da mesma maneira que Samuel não conhecia o Senhor e a Sua Palavra apesar de O servir, há o perigo de haver numa igreja pessoas “servindo” ao Senhor sem nunca ter tido uma primeira experiência com Ele. É possível que se diga: “Senhor, Teu servo ouve”, mas ainda permanecer como simples criatura, sem nunca haver sido transformado em verdadeiro filho e servo de Deus.

Há quem confie que está garantido para a vida eterna pelo fato de ter sido criado junto a uma igreja ou porque tem pais crentes. No entanto, está ignorando uma verdade solene — salvação não passa de pai para filho. O novo nascimento não é pelo sangue de homens (Jo 1:13). Ou seja, pais salvos não dão à luz filhos salvos. Nascer de novo não é um fenômeno hereditário que os filhos herdam ao nascer naturalmente.

O novo nascimento também não acontece por meio de se estar servindo há anos numa igreja local. Toda pessoa nasce pecadora (Sl 51:5), e mesmo que seja criada num lar de pais piedosos e junto a outros crentes, será tão responsável por crer no Senhor Jesus Cristo quanto qualquer outra pessoa.

Ao contrário disso, o novo nascimento é um milagre que somente Deus pode promover (Jo 1:13). Isto Ele faz por meio do Espírito Santo (Tt 3:5) e da Palavra (I Pe 1:23). A Palavra e o Espírito aparecem juntos em João 3:5 no ato de nascer de novo (compare a “água”, aqui, com Ef 5:26). Somente estes dois “Elementos” podem conduzir o ser humano a uma viva fé no Senhor Jesus (Ef 1:13).

Conhecendo o Senhor

Não há dúvidas de que Samuel conhecia muito a respeito de Deus. Seria incoerente ele servir ao Senhor perante Eli, no Tabernáculo, sem ter ouvido e aprendido o que significavam os sacrifícios apresentados ali. Além disso, sua mãe deve ter lhe ensinado muito do temor a Jeová, pois ela queria apresentá-lo ao Senhor. A questão é que, provavelmente, a única vez que Samuel soube de alguém recebendo uma mensagem de Deus na sua época, foi na ocasião em que “veio um homem de Deus a Eli” (I Sm 2:27). Não havia profetas em Siló, e os sacerdotes não estavam em condições de ser usados por Deus (embora seja verdade que Deus usa a quem Ele quer, como usou Balaão para abençoar o povo de Israel). Tanto Samuel quanto os sacerdotes Hofni e Finéias, filhos de Eli, “não conheciam o Senhor” (I Sm 2:12; 3:7). A nenhum deles Deus se manifestara, mas quando chegou a hora do Senhor “quebrar o silêncio”, Ele se manifestou àquele que teve condições espirituais para ouvir e obedecer. Era o primeiro relacionamento entre Deus e o Seu servo. A partir dessa ocasião, Samuel ouviu muitas outras vezes a voz de Deus.

Precisamos, semelhantemente, conhecer a Deus e a Jeus Cristo, nosso Senhor (Jô 17:3). Numa ocasião em que o Senhor Jesus estava sozinho com os Seus discípulos (veja Mt 16:13-17), Ele fez duas perguntas a eles, cujas respostas demonstraram o grau de conhecimento que tinham dEle. “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, foi Sua primeira pergunta. “Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas”, responderam os discípulos. Os homens naturais viam o Cristo como um dos notáveis homens que já existiram; homens “dos quais o mundo não era digno” (Hb 11:38). No entanto, seu conhecimento do Senhor era superficial, pois tais homens, embora muito notáveis, eram homens sujeitos às mesmas paixões que nós (Tg 5:17). “E vós, Quem dizeis que Eu Sou”, foi Sua segunda pergunta. Note que esta segunda pergunta foi mais restrita do que a primeira. Já não era mais o que os homens conheciam, mas sim, o que cada servo conhecia do seu Senhor. “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, respondeu Pedro. Que diferença no grau de conhecimento do Senhor! Os homens naturais podem até conhecer o Cristo como um Homem bom, um notável Homem, mas nós devemos conhecê-Lo como Ele é—Deus!

Se nós estivéssemos lá com o Senhor, e Ele, olhando nos olhos de cada um, nos dirigisse essa pergunta tão particular quanto importante, qual seria a nossa resposta? Aliás, a resposta de cada um? Será que teria alguma diferença da resposta dos discípulos? A resposta a essa pergunta do Senhor demonstra o grau de conhecimento que temos dEle.

Desde a ocasião da primeira experiência com Cristo—a salvação—quanto temos crescido “na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (II Pe 3:18)? Que a exortação de Oséias 6:3 nos incomode: “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor”!

Conhecendo a Palavra do Senhor

Além de não conhecer o Senhor, Samuel também não conhecia a Palavra do Senhor. Creio que “palavra do Senhor”, aqui, se refere à palavra audível do Senhor, não à escrita. Digo isso porque é provável que Samuel tivesse algum conhecimento dos escritos de Moisés (nestes escritos continham as ordens e maneiras para os sacrifícios, etc). O que ele não tinha conhecimento ainda, era de ouvir, com seus ouvidos naturais, a voz de Deus; “ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor”. Samuel não estava acostumado a ouvir o Senhor falar com ele, por isso, nas três primeiras vezes que a ouviu, não identificou Quem o chamava. Como é diferente lermos depois disso tantas vezes a expressão: “Disse o Senhor a Samuel” (I Sm 8:7, 16:1)! Agora ele sabia Quem lhe estava falando.

O Senhor continua falando hoje, porém, pela Sua Palavra escrita. Deus não fala audivelmente conosco como quando falava com Samuel, Ele usa as Suas Escrituras para nos comunicar a Sua vontade. Deus falou “muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas” (Hb 1:1), mas hoje é a Sua Palavra, a Bíblia, que fala ao nosso coração. Há trechos da Bíblia que sabemos citar sem consultá-la, mas há ocasiões que eles nos falam tão intimamente, que é difícil não perceber que é Deus falando conosco. Se queremos ouvir a voz de Deus, precisamos dar ouvidos à Sua Palavra. Mas não é somente saber citar a Palavra, precisamos entendê-la e praticá-la. Quando os saduceus chegaram junto ao Senhor Jesus para O interrogar, eles citaram a Palavra de Deus. O Senhor Jesus, porém, respondeu-lhes: “Errais, não conhecendo as Escrituras…” (Mt 22: 29). Que o mesmo não seja dito de nós.

Um paralelo

Desde que fomos salvos pelo Senhor, somos ensinados que devemos ser Seus imitadores. Devemos andar como Ele andou, e ser o quanto possível parecidos com Ele (veja, por exemplo, I Pe 2:21).

Isso aconteceu com Samuel. Na ocasião da sua primeira experiência com Deus, ele demonstrou ser bem parecido com Cristo. É interessante fazer um paralelo entre uma das profecias que Isaías fez do Senhor Jesus e a ocasião da primeira experiência de Samuel com o Senhor. Veja as semelhanças:

* Is 50: 2: “Por que razão vim Eu, e ninguém apareceu? Chamei, e ninguém respondeu?”* I Sm 3:10: “Então veio o Senhor, e Pôs-se ali, e chamou como das outras vezes.”* Is 50:4: “Ele desperta-Me Todas as manhãs, desperta-Me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem.”* I Sm 3:3, 4 : “E estando também Samuel Já deitado… o Senhor chamou a Samuel.”* Is 50:5: “O Senhor Deus Me abriu Os ouvidos …”.* I Sm 3:10: “Fala, porque o teu servo ouve.”

Agora, olhando para nós, quais das nossas atitudes e palavras podem ser comparadas com as do Senhor Jesus? Depois da salvação, quais experiências nós temos vivido com Ele? Será que temos sido tão íntimos do Senhor ao ponto de sermos despertados por Ele? Esta é uma responsabilidade de todos que são seus servos. Como é importante que a nossa vida seja um paralelo com a do Senhor! É verdade que esse é um padrão muito alto, mas deve ser buscado com muita diligência.

Que sejamos tão parecidos com o Senhor ao ponto de provocar nos incrédulos a mesma reação que os discípulos causaram:“Não és tu também dos discípulos deste Homem?” “Não és também tu um dos Seus discípulos?” “Não te vi eu… com Ele?” (Jo 18:17, 25, 26).

“E reconheceram que eles haviam estado com Jesus” (At 4:13).

A. J. Anthero