Início Doutrina Cristo no Apocalipse - Apêndice D
Cristo no Apocalipse - Apêndice D Imprimir E-mail
Autoria / Fonte: William Watterson   
Sáb, 19 de Maio de 2007 20:42

Este é um dos apêndices de um estudo em Apocalipse. Se quiser segui-lo desde o início, começe com a Introdução.

Os anjos das igrejas

“O mistério das sete estrelas … As sete estrelas são os anjos das sete igrejas” (Ap 1:20). Esta afirmação do Senhor Jesus tem sido um mistério para aqueles que procuram estudar as Escrituras. As estrelas são os anjos; mas quem são os anjos? Qual o relacionamento existente entre anjos e igrejas locais?

a. A palavra e o contexto

A palavra grega traduzida “anjo” (angelos) ocorre 186 vezes no NT. Destas ocorrências, 180 referem-se aos seres espirituais (Hb 1:14) que são superiores ao homem (Hb 2:7), alguns dos quais, rebelando-se, seguiram Satanás. Em outras 6 ocorrências a palavra é usada referindo-se a um ser humano; os homens descritos desta forma são João Batista (Mt 11:10; Mc 1:2; Lc 7:27), dois discípulos de João Batista (Lc 7:24), alguns discípulos do Senhor Jesus (Lc 9:52), e os dois espias israelitas (Tg 2:25).

Antes de pensar no contexto desta passagem, portanto, já podemos aprender alguma coisa: não é provável que “anjo”, aqui, refira-se a algum homem. A palavra usada pode ter este significado, mas isto é raro no NT.

Quando olhamos o contexto, fica ainda mais claro que se trata de seres celestiais. As figuras usadas neste contexto são “estrelas” e “castiçais”; ambos “fornecem luz, mas o candeeiro está na Terra e a estrela está no Céu. Mantendo o paralelismo na interpretação, vemos igrejas na Terra e anjos no Céu”. [veja Nota 1]

Uma análise coerente desta passagem, portanto, nos levará à esta conclusão: os “anjos” mencionados aqui são, literalmente, anjos, seres celestiais de uma ordem superior à humanidade.

b. Outras sugestões

Há muitos comentaristas que não aceitam esta interpretação. Menciono duas interpretações diferentes que são bem difundidas.

  • Alguns entendem que os anjos, neste contexto, simbolizam as lideranças destas sete igrejas. Para alguns, o anjo é figura do “pastor” da igreja (mas o NT ensina claramente que cada igreja local é governada por uma pluralidade de anciãos, nunca por um só homem). Para outros, o anjo é uma figura do presbitério, ou ainda daqueles que são responsáveis pelo ensino na igreja. Todas estas interpretações, porém, apresentam um problema: estão fazendo da interpretação um novo símbolo! Os anjos, neste contexto, não são figura de nada; são interpretação de uma figura. A figura, o símbolo, são as estrelas, que representam os anjos. Se quisermos fazer dos anjos figura de algo, então teremos que fazer o mesmo com as igrejas, que são simbolizadas pelos castiçais.
  • Além desta interpretação, há alguns que traduzem a palavra como “mensageiro”, dizendo que refere-se a uma espécie de “carteiro” que levaria a carta à igreja. Como foi visto acima, a palavra grega angelos pode ter este significado; mas por que traduzi-la “mensageiro” só aqui, sendo que nas outras 68 referências neste livro (inclusive uma em 3:5, na carta à igreja em Sardes) ela claramente descreve um ser celestial? E como é que um mensageiro poderia ser considerado responsável pelo comportamento da igreja toda? E por que a carta seria endereçada ao “carteiro”, e não à igreja propriamente dita? Estas perguntas continuam sem ser satisfatoriamente respondidas.

c. Representatividade

Creio que a interpretação desta figura é simples: as estrelas (o símbolo) representam os anjos das igrejas (a interpretação). Esta interpretação foi dada pelo Senhor mesmo (1:20), portanto sabemos que é correta.

Ainda assim, porém, resta uma dificuldade: qual o relacionamento destes anjos com as igrejas locais?

Há uma sugestão interessante apresentada por J. Allen [veja Nota 2], que parece solucionar o problema. Ele destaca a relação que parece existir entre coisas terrestres e celestiais (por exemplo, Hb 8:2, 5; 9:23-24). Quanto a pessoas, a palavra “anjo” é usada algumas vezes representativamente (por exemplo, Mt 18:10 e At 12:15). As palavras do Senhor em Mt 18:10 não indicam que cada criança tem um “anjo da guarda”, mas “que os pequeninos estão representados no céu por um anjo”.

No bem conhecido dicionário de palavras gregas de W. E. Vine, temos esta mesma sugestão, quando o autor diz que a palavra angelos é usada “de um representante em Ap 1:20, Mt 18:10 e At 12:15”. [veja Nota 3]

No seu comentário sobre este trecho, R. E. Watterson destaca as referências a anjos em Daniel. [veja Nota 4] Temos menção de um anjo chamado “príncipe da Pérsia” (Dn 10:13, 20), outro que é o “príncipe da Grécia” (10:20), e Miguel, que é “vosso príncipe” (10:21; isto é, príncipe do povo de Israel, ao qual Daniel pertencia).

A sugestão, portanto, é que cada igreja local teria um anjo no céu que seria seu representante. Ao dirigir-se ao anjo, o Senhor não está dizendo que este é responsável pelo estado da igreja, mas dirige-se a ele como representante da igreja. Seria destacada a posição da igreja, não tanto sua prática.

Isto explica porque o Senhor dirige-se ao anjo como se falasse à igreja, em todas as cartas. A carta é dirigida ao anjo, mas é a igreja que é censurada, exortada ou elogiada.

d. Conclusão

Creio que o Senhor está se referindo a anjos literais; os anjos aqui não podem ser entendidos figurativamente. Mas qual a função destes anjos? A sugestão que parece ter mais apoio das Escrituras é que estes anjos são estabelecidos por Deus como representantes das diversas igrejas, um testemunho diante do trono de Deus para cada igreja local.

W. J. Watterson

Notas

(nota 1) Watterson, R E, Apocalipse, Edições Cristas, 1987, pág. 20. [voltar ao texto]

(nota 2) Allen, J, Ritchie Comentaries vol 10, John Ritchie Ltd., 1997, pág. 54-55. [voltar ao texto]

(nota 3) Vine, W E, Expository Dictionary of New Testament Words, Oliphants, 1948, pág. 55. [voltar ao texto]

(nota 4) Watterson, R E, Apocalipse, Edições Cristas, 1987, pág. 20.[voltar ao texto]